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Não, eu não gosto de Miles Davis. E daí?

Há tempos tenho recebido críticas veladas e explícitas sobre meu gosto musical. Na verdade, os comentários incrédulos aparecem quando sou sincera e confesso que alguns cantores, bandas ou músicas não satisfazem meus ouvidos e nem a minha alma, mesmo o meu cérebro teimando de que eu deveria, sim, apreciar tais canções. Feições de espanto se formam quando eu digo, com convicção, que não gosto do Miles Davis. Se você nunca me ouviu dizendo isso, gostaria de ver agora a sua cara de espanto ao ler a minha confissão. Não gosto mesmo, e daí?

Entendo e compreendo toda a sua contribuição ao jazz. Sei também que se trata de um dos mais influentes músicos do século XX. E não penso em nenhum momento em renegar tais méritos. Mas ouvir Miles Davis me incomoda, me tira do eixo e me faz ter vontade de desligar o aparelho de som. Demorou anos até eu ter coragem de afirmar a minha posição. Em todas as rodas (pelo menos as frequentadas por mim) não há um só ser que concorde comigo. Até que um dia resolvi soltar: "Eu não gosto de Miles Davis."

A mesa do bar ficou em silêncio por alguns segundos, até todos digerirem a informação ali emitida. Todos - a maioria que compunha a mesa era do sexo masculino - se entreolharam. E, então, começaram as críticas. Contra mim, claro, e não contra o Miles, óbvio. Decidi que, então, todas as vezes que ele fosse citado em uma conversa, eu iria me manifestar. E assim é. Mesmo quando opto por ficar em silêncio, meu marido faz questão de falar: "A Fernanda não gosta de Miles." Pronto. Lá estou de novo sendo bombardeada por incrédulos.

Já falaram até que eu não era madura musicalmente o suficiente para gostar do Miles. Mas na minha casa tem praticamente todos os discos dele, de vinil a CD. Claro que não são meus. São do meu marido. Eu até o presenteio com discos raros. Só peço que evite ouvir enquanto estamos juntos. Portanto, já ouvi Miles o suficiente para saber que não gosto.

Se você acha que tenho predileções por axé, pagode ou sertanejo, engana-se. Gosto de tudo o que é bom. Do meu modesto ponto de vista. Stevie Wonder faz o meu coração palpitar. Danço ouvindo Marvin Gaye sozinha na sala. Leio tudo sobre Tim Maia. Fico ensandecida com John Coltrane. Canto alto Supertramp. Choro ouvindo Elis Regina. Fiz de tudo para ir ao show do Paul Mccartney. Vou ao do Eric Clapton. Leio ao som de música clássica e viajo quando toca um tango argentino. Mas não me venha com um disco do Miles Davis, por favor!

A última vez que feições de espanto se formaram foi há algumas semanas, quando em uma festa começou a rolar Have you ever seen the rain. Todo o bar veio abaixo, mas eu permaneci sentada e sem cantar. Mesmo sem ninguém perguntar, falei para a amiga que estava mais próxima de mim: Não gosto dessa música. A pessoa que sentava do outro lado, meu marido, ouviu e emendou: Ela também não gosta de Miles Davis. Pronto. Começou tudo de novo.

50 anos de Kind of Blue

Quando Jimmy Cobb chegou ao estúdio da Columbia Records para a primeira das duas sessões de gravação com Miles Davis, nem lhe passou pela cabeça a ideia de que estava a ponto de fazer história.


"Sempre gostei de gravar discos com Miles", comentou Cobb, que chegou ao estúdio antes dos outros músicos para montar sua bateria. "Nem me haviam dito que tipo de música gravaríamos", acrescentou. Cobb terminou gravando com um sexteto de grandes luminares do jazz um álbum que o lendário Quincy Jones (entre muitos outros) considera "uma das melhores gravações da história". Desde seu lançamento, em agosto de 1959, Kind of Blue tem sido um dos discos de jazz mais influentes e populares. Apenas nos Estados Unidos, vendeu quatro milhões de cópias.

Mas, em 1959, Cobb —único sobrevivente de um grupo que incluía os saxofonistas John Coltrane e Julian “Cannonball” Adderley, os pianistas Bill Evans e Wynton Kelly e o baixista Paul Chambers —pensou que se tratava de "mais uma sessão de gravação com Miles, como tantas outras". "Reinava um ambiente relaxado e os rapazes estavam todos à vontade", recorda Cobb, aos 80 anos, durante uma entrevista num restaurante de Manhattan. "Acho que isso era pelo talento, a música, o estúdio... Não sei qual é a fórmula para produzir momentos mágicos, mas foi isso o que aconteceu naqueles dois dias."

Para Quincy Jones, que em seus primeiros dias como trompetista, na década de 1950, foi muito influenciado pelo amigo Miles, Kind of Blue é o ápice de uma era dourada do jazz que começara no fim dos anos 40, com a revolução do bebop encabeçada por Charlie Parker e Dizzy Gillespie. O disco antecipou os novos sons que surgiriam nos anos 60. "É um disco que soa como se houvesse sido gravado ontem", impressiona-se.

Kind of Blue segue tendo um impacto enorme, que transcendeu o jazz e fascinou tanto roqueiros como os Allman Brothers e Carlos Santana como os compositores minimalistas Steve Reich e Philip Glass. "O gênio de Miles foi que pode manter uma qualidade criativa enorme e ao mesmo tempo fazer um trabalho de grande aceitação popular", assinala o pianista Chick Corea. (Leia texto completo na Gazeta de Ribeirão: http://www.gazetaderibeirao.com.br/)

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Jornalista. Ardida. Gosta de livros, música, Mafalda, São Jorge, sorvete, corrida e bicicleta. Canta sozinha na rua e conta helicópteros no céu.

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