Tiraram a nossa máquina de café. Culpa da turbulência econômica internacional e do consumo excessivo da bebida sagrada pelos jornalistas. Diretoria continuou com a máquina. Deve ser porque eles não bebem tanto café assim. Nos presentearam com o cafézinho da máquina Melitta. Caseiro, muito melhor
Demitiram dois repórteres de uma equipe de seis. Culpa da turbulência econômica internacional.
Com a equipe reduzida, a redação é informada de que o número de páginas do jornal iria aumentar durante a semana e no domingo também. Por causa da turbulência econômica internacional, o bendito impresso precisaria ficar com mais volume, para atrair mais anunciantes e mais assinaturas
Sem café e sem repórter, jornalistas seguiram produzindo um jornal mais robusto
Pediram para diminuir a quantidade do banco de horas. Pediram para diminuir o valor gasto com táxi. Pediram um suplemento especial de Imóveis, Mulher, Aniversário, Condomínios, Empregos, Educação. Pediram para não ter erros nas matérias. Pediram para tomar mais cuidado com coluna social. Pediram para otimizar as funções. Pediram para não publicar matéria que falava mal do fulano e do ciclano para não perder o anunciante. Pediram mais cautela. Pediram para não viajar muito para economizar a gasolina e o pedágio. Pediram para não deixar jornais esparramados em cima da mesa. Pediram para organizar as mesas. Vetaram congressos. Vetaram verbas para cursos. Vetaram aumento para os funcionários. Contrataram mais contatos para a publicidade.
Jornalistas seguem fazendo três pautas por dia, tomando cuidado para não gastar muito com o táxi, não ultrapassar o banco de horas, não escrever o nome do fulano ou do ciclano, não falar mal do fulano ou do ciclano. E os jornalistas seguem fazendo três pautas por dia, sem previsão de aumento, sem coragem de pedir para participar de um congresso, sem vontade, sem viagem e sem café. E os jornalistas continuam fazendo três pautas por dia e sendo obrigados a engolir tudo. Sem se manifestar, sem reclamar. Tudo normal. Porque jornalista se acostuma com tudo. É isso ou nada.
Sem máquina de café: é tudo culpa da crise
Marcadores: café , jornalismo , jornalista , repórter
Ai que preguiça de checar!
- Você pode checar essa história para mim? Parece que atearam fogo num morador de rua durante a madrugada. Não sei que bairro foi, mas a vítima deu entrada no pronto-socorro com queimaduras no pé.
3 horas depois...
- Você checou aquela história?
- Não. Não apostei nela!
- Ah, é? E por que não?
- Porque queimou só o pé
- Ah, mas que sorte teve o morador de rua hein? Poderia ter sido no corpo inteiro
- É, poderia.
- Deixa que eu checo essa história para você, pois eu estou apostando nela (detalhe: não estava acreditando que estava ouvindo isso de um repórter)
5 minutos depois...
- Quem colocou fogo no mendigo foi o dono de uma loja de computador onde ele dormia todas as noites. Aconteceu na frente de um shopping, o segurança viu e o proprietário foi detido. Ele alegou que tinha jogado álcool na calçada, em plena madrugada, para tirar o cheiro de urina deixado pelos mendigos
- Ah, parece que agora a história tá ficando boa. Vou checar. Que sorte que o mendigo teve de só ter queimado o pé, não é?
- É, Joãozinho, é sim. Sorte a dele.
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