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As pegadinhas do amor

Poderia ter sido um dia como outro qualquer, mas não foi. Aqui o que menos importa é se chovia ou se fazia sol. Se era Verão ou Inverno. Noite ou dia. Escritório ou praça pública. Quente ou frio. Praia ou campo. Brisa ou ventania. O único fator importante daquele dia de abril é que foi quando ela o conheceu. Parece mais uma história boba de amor à primeira vista. Mas que história de amor à primeira vista não é tola? Imaginem se as histórias de amor fossem complexas como calcular logaritmos? Que chatice seria o amor. 

Voltando. Ela tinha certeza que ele tinha sido feito pra ela. Sabe aquele clichê de “é o meu número?” Então, mais ou menos isso.  Moreno, barba por fazer, altura no limite (isso significa que ela poderia usar seus saltos favoritos sem ultrapassá-lo), voz grossa e máscula, poliglota, mais de trinta anos e menos de quarenta, um cabelinho meio rebelde e um jeito relapso de usar a camisa com dois botões abertos e uma parte que saía para fora da calça, como quem quer parecer desarrumado de propósito. Ela tinha certeza que ele era o genro que toda mãe queria. Não, não estava pensando em casamento. Não já. Mas um dia, quem sabe. Ela casaria com ele. Ah, casaria.

Depois desses cinco minutos em que foram apresentados e em que o seu coração pulsou como nunca, um anel na mão esquerda brilhou quando ele foi dizer tchau. Ele era casado. Puta que o pariu. Ele era casado. Ca-sa-do. Óbvio que ele era casado. Nada com ela poderia ser tão fácil. Algumas amigas ainda a aconselharam a investir mesmo assim. Vai que ele nem estivesse tão bem assim com a mulher. Mas ela não queria saber dessa conversa não. Se ele era casado, ela estava fora. E decidiu que assim seria. Evitou todos os olhares no café, na máquina de refrigerante, no elevador. Não riu das piadas dele durante o almoço, não aceitou os convites para tomar um ar lá no jardim de Inverno, nem para uma água com gás com gelo e limão. Sofreu, chorou, foi para a terapia, para a cartomante, para o pai de santo. Xingou. Blasfemou. Maldita aliança que não parava de reluzir e não lhe saía do pensamento.

Meses se passaram. Ela arrumou outro. Nada como uma nova paixão para curar a antiga. E esse é mais um clichê, mas quem liga pra isso? Estava descontraída, feliz com o novo namorado. Então, aceitou o convite para o café. Enquanto conversavam sobre o novo presidente da empresa - aquele pedante, grosseiro e machista -, ela teve tempo para fixar os olhos na aliança dele sem compromisso. Sem pressa. Afinal, já tinha até esquecido que ele tinha nascido para, quem sabe um dia, ser seu futuro marido. Olhou, olhou, olhou. Reparou bem. Muito bem. Não era possível. Não, não, não. Não é possível. Olhou de novo. Sim, era isso mesmo. Encarou a realidade. Aquilo não era uma aliança. Era um terço em forma de anel. Além de tudo, religioso. 

Maldito Facebook

Ela me contou a sua história de amor e pediu para que eu a escrevesse. A história poderia ter sido escrita por ela mesmo, de tão linda que é, mas ela não queria que soubessem de quem se trata. Então, ficou assim:

De óculos escuros, cabelos presos, e uma roupa qualquer, ainda olhando para a área de embarque enquanto ele se ia, ela chorou. Chorou de soluçar. Chorou de perder as forças, chorou até faltar o ar. Chorou de fazer barulho. Chorou de doer. De doer a alma. Chorou sozinha. E foi embora sozinha. Ele não voltaria mais. Ela sabia. Pelo menos não mais para a vida dela. Mas para preencher a vida de alguém ele estava voltando.

Conheceram-se durante um trabalho esporádico, daqueles intensos, que te deixam sem casa e sem vida por alguns meses. Mas que vale a grana paga. Ela na cidade dela e ele fora da cidade dele.  Foi amor ao primeiro telefonema. Ficaram um mês se apaixonando um pelo outro somente pela voz. E quando não tinham motivos para se falarem por telefone, arrumavam um. Ambos sabiam que aquela ligação era somente uma desculpa para se ouvirem. Ela gostava da voz dele. Ele achava ela engraçada. Parecia que se conheciam há anos. Quase que de outra vida. Sim, chegaram a suspeitar que era coisa de reencarnação.

Viram-se pessoalmente. Meu Deus, ele não era só aquela voz bonita do telefone. Deu choque já nos primeiros segundos do encontro. Mas era um encontro de trabalho e não amoroso. Contiveram-se. Ela fala que ouvia barulhinho de alta tensão só de relar nele, tamanho era o choque. Ela descobriu que ele namorava. Ficou decepcionada. Ficou brava. Ficou triste. Ficou com raiva da vida. Decidiu que iria resistir ao amor. Ele concordou. Mas ninguém resistiu a nada. O cupido havia acertado a flecha. Não era só a conhecida química explosiva – pele e cheiro – mas também tinha cumplicidade na troca de olhar, no sorriso, nas conversas, nos abraços e nos carinhos. Era sexo, sim. Mas também era coração.

Foram dois meses assim e ambos achavam que, enfim, a vida seria generosa com eles. Tinham tudo, mas faltava o amor. E o amor estava ali agora. O trabalho temporário acabou. Corações ficaram aflitos. Ele precisava voltar para a cidade dele. Para o Estado dele. Para a namorada dele. E ele voltou. E foi ela quem o levou até o aeroporto. Depois da despedida, chorou mais dois dias na cama. Sem sair se quer para comer. Mas decidiu que era hora de levantar – da cama e para a vida – e assumir os riscos que saberia que iria enfrentar quando disse sim a ele.

A vida tomou o seu rumo e ela continuou a buscar um amor. Nunca mais se falaram. Dia desses resolveu matar a saudade vendo fotos dele no Facebook. Descobriu que ele e a namorada haviam se casado. Ficou em choque. Mais um dia chorando na cama. Não tem muita certeza, mas acha que ele era o homem da vida dela. Pelo menos até hoje. Maldito Facebook. 

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Jornalista. Ardida. Gosta de livros, música, Mafalda, São Jorge, sorvete, corrida e bicicleta. Canta sozinha na rua e conta helicópteros no céu.

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