Coisas que só acontecem comigo (Diálogos numa farmácia)

Meu dedo do pé direito ficou do tamanho de um pão. Tipo Seven Boys. Com um certo exagero da minha parte, claro. Mas estava roxo e inchado. Isso é fato. No dia seguinte, enquanto fazia compras no Carrefour, de Havaianas, decidi dar uma chegada na farmácia do supermercado e perguntar para a atendente, que eu julgava ser farmacêutica, qual a avaliação dela sobre o meu dedo.


Eis que mostro meu dedo a ela. E ela, ao invés de me ajudar, decidiu mostrar a própria canela, que também estava roxa. Mas antes disso pediu que eu perdoasse a sua canela sem depilação. Ou seja, ela estava com a perna peluda. Olhei para o lado. Me recusava a ver aquilo num domingo de manhã. Já basta a minha canela.

- E o meu dedo?, perguntei rapidamente

- Parece torto, disse ela.

- E o que faço?

- Menina, deve estar doendo. Imagina a hora que você for dormir, a dor que não vai sentir. Você é casada?

Entrei em pânico. Não pela dor que ela previa porque eu já tinha dormido e a atendente não sabia, mas pela situação bizarra que eu me encontrava com aquela ser.

- Olha, se eu fosse você tirava uma chapa desse dedo porque se não ele pode ficar torto. O problema é que se tiver luxado ou quebrado não dá para por tala. Vai ter que engessar o pé todo. Aí já viu né?

- Tá bom, moça. Enquanto isso, me indica um remédio para aliviar a minha dor.

- Você costuma ter dor de estômago?

- Que?

- Porque se tiver dor vou te indicar um remédio que não ataca o estômago.

- Ta, ta bom. Eu tenho dor de estômago.

- Toma esse remédio, então.

- Ok, moça. Obrigada

Quando eu já estava na porta ouço-a me chamando de volta

- Ah, só pra te alertar que certeza que a sua unha vai cair! Pode esperar!

Há coisas que só São Paulo pode fazer por você

De emprego novo, saí esta semana na hora do almoço para fazer um reconhecimento do local em busca de um tipo de estabelecimento que aprecio muito, os restaurantes. Já tinha seguido uma indicação ou outra, mas decidi sair meio que sem rumo. Na calçada, virei à esquerda, à esquerda de novo e depois de três quarteirões achei a meca dos restaurantes. Um pouco perdida, decidi começar pelo primeiro do lado direito. Combinei comigo mesma que seria um diferente por dia até conhecer todos daquela rua. Desde que, óbvio, ele não tivesse jeitão de custar horrores.

Paulista Natural. Esse é o nome do primeiro restaurante. R$ 19. À la vonté. Inclusive com direito a sucos e vários tipos de sobremesas, inclusive mousses e doces lights. Estava no meu segundo prato (o primeiro foi de saladas) quando um senhor sentou na mesa à minha frente, voltado para mim. Eu já tinha o observado porque ele me lembrou o Itamar Franco e ele também guardou a gravata dentro da camisa para não sujar na sopa. Eu nunca tinha visto aquilo.

De repetente percebo que ele tenta se comunicar comigo. Ele apontava para mim e falava alguma coisa que não entendia. “Quê?” perguntei três vezes. Mas continuava a não entender nada. Dei um sorriso sem graça e continuei a almoçar. Quando terminei o segundo prato e ia para a sobremesa, não me contive e fui até a mesa do sósia do Itamar perguntar o que ele tinha falado.

- Falei que, apesar de eu ter três filhos canhotos, não é comum ver muitos canhotos por aí. E você é canhota, disse o Itamar.

- Mas eu não sou canhota não. Na verdade sou canhota só para comer. Deve ser porque minha falta de coordenação é tanta com a mão esquerda que não consigo movimentar a faca.

- Eu consigo fazer tudo com as duas e, por isso, sou até um pouco estabanado. Esbarro em tudo.

- Sabe que o senhor reparou numa coisa que o meu pai só observou na semana passada? Durante o almoço de Páscoa ele me perguntou que história era aquela de eu ter virado canhota. Dei a ele a mesma explicação que estou dando para o senhor.

- Muito interessante a sua história.

Mais um sorriso e fui para a minha sobremesa. Mousse de coco light. Estava bom. Mousse de maracujá light (estava bem ruim). Uma rodela de laranja e carambolas. Não posso freqüentar sistemas de “coma até morrer.”

Saindo do restaurante decidi fazer um caminho diferente para conhecer mais lugares. Quando estou a dois quarteirões da empresa, um repórter de televisão me para. Digo a ele que sou jornalista e que não teria a menor graça para ele me entrevistar. Tentava despistá-lo porque tenho pavor, pa-vor, de câmeras.

Quando dei por mim, o sujeito já estava me entrevistando sobre a criação da secretaria para o micro-empreendedor. E, pela primeira vez, dei uma entrevista para a televisão. Eu, que sempre só entrevistei. Decidi que estava mais do que na hora de voltar para o expediente sem alterar o rumo dantes traçado.

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Jornalista. Ardida. Gosta de livros, música, Mafalda, São Jorge, sorvete, corrida e bicicleta. Canta sozinha na rua e conta helicópteros no céu.

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