Os primeiros dias do meu voto de pobreza. Ou quase um.

Após anunciar no Facebook que os verbos “gastar” e “comprar” seriam extintos do meu vocabulário e 25 amigos terem curtido o meu status, sinto-me na obrigação de compartilhar aqui como foram os primeiros dias do meu voto de pobreza, que não tem data para chegar ao fim.

Logo no primeiro dia passei em frente a uma das minhas lojas favoritas de calçados, na Avenida Paulista. Em certo dias, quando eu não estava atrasada, descia uma estação antes do metrô só para passar em frente a ela e dar uma olhadinha básica. Os sapatos são os mais lindos e confortáveis do universo e custam uma fortuna. Fortuna que eu costumava pagar porque com esse pé chato que não pedi a Deus só eles me faziam felizes durante as longas caminhadas que preciso enfrentar em minhas locomoções diárias.

Voltando ao assunto da loja. Passei em frente e vi aquela linda faixa com os dizeres “Promoção”, “Até 50% de desconto” e por aí vai. Resolvi entrar só para saber quanto estava valendo o sapato dos meus sonhos. “Se quiser é só falar que pego o seu número”, disse o rápido vendedor. “Não, obrigada. Só estou olhando”, respondi eu com uma lágrima escorrendo. Mentira. Exagero meu. Mas o sapato estava com um puta de um desconto e em outros tempos teria logo comprado dois pares. Seriam dois pelo preço de um. Fui embora, mas não, livre, leve e solta como alguns diriam que eu me sentiria ao recusar uma compra.

No segundo dia, após o anúncio para o mundo da minha nova fase de vida, um amigo do trabalho pede para irmos almoçar no shopping, pois ele queria aproveitar para comprar um presente para um amigo. Shopping... ia recusar, mas não posso me tornar uma pessoa esquisita. Mais esquisita né? Topei.

Aquele lindo do Shopping Pátio Paulista com todas as lojas que adoro: Side Walk, Siberian, Uncle K, Rovelon. Tudo em promoção, tu-do. Passei reto por todos os corredores. Não olhei nenhuma vitrine. Entramos na Saraiva. É impressionante. Quando você sabe que não pode gastar, as coisas não te chamam mais tanta atenção. Começou a me dar preguiça de ver os livros e os CD´s. Não ia rolar comprar nada mesmo. Fiquei só pensando quanto tempo isso vai durar. Até quando meu cartão de crédito terá uma fatura magrinha? Vou conseguir?

Não, eu não gosto de Miles Davis. E daí?

Há tempos tenho recebido críticas veladas e explícitas sobre meu gosto musical. Na verdade, os comentários incrédulos aparecem quando sou sincera e confesso que alguns cantores, bandas ou músicas não satisfazem meus ouvidos e nem a minha alma, mesmo o meu cérebro teimando de que eu deveria, sim, apreciar tais canções. Feições de espanto se formam quando eu digo, com convicção, que não gosto do Miles Davis. Se você nunca me ouviu dizendo isso, gostaria de ver agora a sua cara de espanto ao ler a minha confissão. Não gosto mesmo, e daí?

Entendo e compreendo toda a sua contribuição ao jazz. Sei também que se trata de um dos mais influentes músicos do século XX. E não penso em nenhum momento em renegar tais méritos. Mas ouvir Miles Davis me incomoda, me tira do eixo e me faz ter vontade de desligar o aparelho de som. Demorou anos até eu ter coragem de afirmar a minha posição. Em todas as rodas (pelo menos as frequentadas por mim) não há um só ser que concorde comigo. Até que um dia resolvi soltar: "Eu não gosto de Miles Davis."

A mesa do bar ficou em silêncio por alguns segundos, até todos digerirem a informação ali emitida. Todos - a maioria que compunha a mesa era do sexo masculino - se entreolharam. E, então, começaram as críticas. Contra mim, claro, e não contra o Miles, óbvio. Decidi que, então, todas as vezes que ele fosse citado em uma conversa, eu iria me manifestar. E assim é. Mesmo quando opto por ficar em silêncio, meu marido faz questão de falar: "A Fernanda não gosta de Miles." Pronto. Lá estou de novo sendo bombardeada por incrédulos.

Já falaram até que eu não era madura musicalmente o suficiente para gostar do Miles. Mas na minha casa tem praticamente todos os discos dele, de vinil a CD. Claro que não são meus. São do meu marido. Eu até o presenteio com discos raros. Só peço que evite ouvir enquanto estamos juntos. Portanto, já ouvi Miles o suficiente para saber que não gosto.

Se você acha que tenho predileções por axé, pagode ou sertanejo, engana-se. Gosto de tudo o que é bom. Do meu modesto ponto de vista. Stevie Wonder faz o meu coração palpitar. Danço ouvindo Marvin Gaye sozinha na sala. Leio tudo sobre Tim Maia. Fico ensandecida com John Coltrane. Canto alto Supertramp. Choro ouvindo Elis Regina. Fiz de tudo para ir ao show do Paul Mccartney. Vou ao do Eric Clapton. Leio ao som de música clássica e viajo quando toca um tango argentino. Mas não me venha com um disco do Miles Davis, por favor!

A última vez que feições de espanto se formaram foi há algumas semanas, quando em uma festa começou a rolar Have you ever seen the rain. Todo o bar veio abaixo, mas eu permaneci sentada e sem cantar. Mesmo sem ninguém perguntar, falei para a amiga que estava mais próxima de mim: Não gosto dessa música. A pessoa que sentava do outro lado, meu marido, ouviu e emendou: Ela também não gosta de Miles Davis. Pronto. Começou tudo de novo.

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