Não que eu esteja mentindo. Não é isso.

Não que eu repare na roupa dos outros, mas até hoje não entendi porque ela sempre chega à academia com o jaleco que usou para trabalhar a madrugada toda. Não que eu faça pré-julgamentos, mas aquele jaleco só pode ter sido usado durante a madrugada num hospital qualquer. Não que eu repare nas outras mulheres, mas não sei qual o motivo de ela usar aquela sombra cor de rosa neon seja dia ou seja noite. Não que eu considere estranho, mas não sei por que ela chama o cachorro de filho ou o filho de príncipe. Não que eu tenha algo contra, mas não entendo como alguém pode gostar de pagode, rap ou sertanejo. Não que eu tente impor meus gostos, mas por que não ouvir jazz, rock ou blues? Não que eu seja contra a diversidade, mas não entendo como ele pode ter virado gay sendo tão bonito e com tanta mulher disponível no mercado. Não que eu prefira plantas às crianças, mas é que elas dão bem menos trabalho e ainda te recompensam com flores.  Não que eu ache que as pessoas precisam se vestir do mesmo jeito, mas não entendo quem usa conjunto de oncinha. Não que eu não respeite os que comem carne, mas acho que todos deveriam ser vegetarianos. Não que eu não respeite todas as crenças, mas na minha opinião todo mundo deveria acreditar na vida após a morte. Não que eu esteja preocupada com isso, mas ela está uns bons quilos acima do peso. Não que não faça parte, mas você reparou como ela envelheceu? Não que eu acredite nisso, mas certeza que aquele câncer é psicossomático, de tanto estresse que ele passa na vida, não concorda? Não que eu não goste, mas acho estranho homem com gel no cabelo. Não que eu não esteja aberta a novas experiências, mas não frequento festas com gente que eu não conheço. Não que eu seja neurótica, mas sempre acho que posso ser atropelada por um ônibus. Não que eu seja apegada a dinheiro, mas ela tinha razão de ter brigado pela herança. Não que eu não goste, mas acho cafona prédio com cascatas. Não que eu queira impor minhas ideias, não é isso, mas não consigo ter paciência com gente que acha normal jogar latinha na rua para dar emprego para o gari. Não que eu me intrometa em brigas de marido e mulher, mas ela bem que mereceu a separação. Não que eu seja a favor da violência, mas ninguém mandou ele provocar. Não que eu não esteja feliz, mas o que me falta é dinheiro. Não que eu me intrometa na vida alheia, mas o problema dele são os filhos. Não que eu seja contra o aborto, mas quem mandou não usar camisinha? Não que eu esteja sendo dissimulada, não é isso. E nem mentindo. Não é isso.  

Posso falar? Eu só queria dizer que sou contra

Eu só queria saber se eu também tenho direito à palavra. Não é porque sou só uma locatária que eu não posso opinar em relação às mudanças que acontecem no prédio. Eu tendo ou não direito a voto, vocês terão que me ouvir. Eu preciso falar. Preciso. Sério. Porque mesmo eu sendo só uma locatária preciso dizer que é um verdadeiro absurdo vocês terem montado a árvore de Natal na frente do espelho da recepção. Ainda falta um mês e meio para o Natal e daria muito bem para esperar mais um pouco. Mas, se fazem questão de montar a árvore mesmo faltando um mês e meio para o Natal, tudo bem, mas não precisava instalar a árvore de Natal bem na frente do espelho da recepção.
Aposto que foi um homem quem teve a brilhante ideia de instalar a árvore de Natal mesmo faltando um mês e meio para as festas na frente do espelho. Mulher nenhuma faria isso. Nem mesmo aquelas que levam uma vida franciscana. Nem mesmo as hippies. Nem mesmo as que não se preocupam com o cabelo. Nem mesmo as que não usam maquiagem. Nem mesmo as que não usam salto, nem mesmo as lindas, nem mesmo as feias, nem mesmo as que só usam chinelo, nem mesmo a monja Coehn.  Não que eu seja contra árvore de Natal. Não é isso. Na verdade, é isso. Também isso. Mas sou ainda mais contra quando elas são montadas faltando tanto tempo para chegada do Papai Noel. Céus, eu disse Papai Noel? Sim, eu disse. Disse não. Escrevi. Eu prefiro o espelho à árvore de Natal. Se as árvores de Natal só são desmontadas dia 6 de janeiro, isso significa que terei dias difíceis até lá. Não me interrompe, por favor, porque estou falando. Como assim não posso dar palpite só porque sou locatária? Eu só queria dizer que há muitos outros lugares no prédio para instalar essa árvore de Natal gigante. E se a gente empurrasse um pouco mais para a direita? Ou para a esquerda? E se colocássemos lá ao lado da guarita? E se colocássemos no estacionamento? No salão de festas? No jardim de inverno? Ao lado da fonte? Ah, já sei, e se não montássemos a árvore? Gosto de ideia de não montarmos a árvore. De fingirmos que não está acontecendo nada. Entre um espelho de dois metros por um metro e meio e uma árvore de Natal fico com o espelho. E posso estar sendo prepotente, mas acredito que eu esteja fazendo tal reivindicação no nome de todas as mulheres desse prédio.
Além do mais, a própria CNBB orienta que as árvores só sejam montadas a partir de 30 de novembro. Vocês não respeitam nem a liturgia. Gente ansiosa, credo. Sabia que vocês estão estimulando o consumo desenfreado lembrando as pessoas que já é Natal? É, as crianças olham para árvore e já começam a grudar na barra da calça dos seus pais com pedidos descabidos. Dia desses vi uma que pediu aquele vídeo game de R$ 4 mil. Isso é o tipo de assunto que deveria ser decidido em assembleia. Ah, foi decidido em assembleia? Eu não fui convidada por que sou locatária? Aposto que essa reunião estava composta apenas por membros do sexo masculino. Esse gênero não entende nada de mulher, quanto menos de espelho. Tudo bem que eu sou apenas uma locatária, mas vocês já pararam para pensar quantas mulheres desamparadas, assim como eu, habitam o mesmo prédio uma hora dessas? Já pararam para pensar quantas mulheres se aventurando pelo mundo com seus batons borrados, seus sapatos trocados, suas blusas do avesso, seus penteados despenteados, seus cintos fora do lugar? Uma vida toda de dedicação jogada no lixo. No lixo. Era só isso o que eu queria dizer. Obrigada e boa noite. 

Talvez nem sejam eles


Eu queria ter começado esse texto informando que no meu prédio tem 48 apartamentos. Teria sido simples ter chegado a esse número se eu ao menos soubesse quantos andares tem o prédio em que moro há um ano e nove meses. Portanto, antes de começar a escrever, fui até o elevador e contei quantos andares tem o prédio em que moro há exatos um ano e nove meses. São dozes pisos. Multiplicado por quatro unidades por andar, são 48 moradias. Refiz as contas várias vezes para não errar o cálculo e o assunto desse texto ir para o viés óbvio de que jornalistas não sabem fazer contas.

Hoje, ao chegar do trabalho e entrar no elevador do prédio que moro há exatos um ano e nove meses, mais um aviso com escritos prontos, daqueles em que só trocam o nome, lamentava a morte do senhor José de Vito, do apartamento 81. Trocam o nome e o número do apartamento. Para escrever aqui o nome completo do José de Vito, precisei voltar novamente ao elevador para checar a informação porque não consegui decorar quando fui da primeira vez para contar os andares.

Do térreo até o quinto piso, ocupado apenas por mim e mais um moradora que devo ter visto o rosto duas vezes e não ouso nem chutar o nome porque não saberia nem por onde começar, são apenas alguns segundos. Entrei em casa e mais alguns segundos até colocar o nuggets no forno. Nuggets esse que torrou enquanto eu escrevia esse texto. Mas o tema aqui também não são os nuggets. Queimados ou não. O assunto é o fato de mais uma pessoa do meu prédio ter morrido. Mais uma pessoa que eu não faço ideia de quem seja.

Desde que estou aqui, há exatos um ano e nove meses - eu já falei isso? -, o José deve ser a quinta. José de Vito. É esse o nome dele. Das cinco, eu só lembrava de uma, que era a minha vizinha da frente. Pelo sobrenome, DE VITO, fico pensando que pode ser um senhor simpático que eu trombo no elevador de vez em quando passeando com um cachorro de pequeno porte, de uma raça rara, segundo ele mesmo me contou, e cujo cachorro sempre rosna quando tento passar a mão no rabo peludinho dele. Mas, talvez, eu esteja confundindo esse senhor com um outro que tem dois cachorros e que também sempre trombo no elevador. O primeiro dos dois sempre puxa papo comigo quando entro suada voltando de alguma corrida. Na conversa, os bons tempos de quando ele corria maratonas inteiras e sentia os ossos praticamente em frangalhos quando completava os 42 quilômetros. E ele sempre completava. Pelo menos foi o que ele me contou.

Mas, talvez quem me diga isso não seja o senhor do cachorro com raça esquisita e sim o dono dos dois cães viralatas. Eles não são parecidos. Os donos não são. Mas acho que os cachorros são e me confundem. Ou talvez o que me confunde seja o fato de estarmos ambientados sempre no mesmo local. Ou ainda o fato de eu estar sempre pensando em alguma outra coisa. Já disse que não tenho foco? Talvez, nem mesmo seja nenhum desses dois que tenha falecido na madrugada de ontem.

Interfonei para o síndico para tentar desvendar algo. Em vão. O porteiro também não soube me informar nada. Ele é novo aqui. Vivem trocando de porteiro. Acho chato isso porque fica cada vez mais difícil de eu decorar o nome deles. Talvez amanhã, quando eu sair para trabalhar, consiga falar com o Fernando, o síndico, para tentar descobrir quem foi e o que aconteceu. Talvez nesse meio tempo eu trombe com um dos dois no elevador e já descarte alguma possibilidade. Talvez eu encontre com os dois e volte à estaca zero sobre minhas tentativas de acerto e erro. Talvez eu nunca descubra quem tenha sido José de Vito, morador do 81. Talvez, mesmo nesses exatos um ano e nove meses, eu nunca tenha trombado com ele no elevador. Talvez tivéssemos horários diferentes. Talvez ele nem tenha cachorro. Talvez nem seja senhor. Talvez esse seja só mais um caso de um completo desconhecido que mora no mesmo lugar que você há exatos um ano e nove meses. Um desconhecido que faleceu na madrugada de ontem.

Inspira, expira e pensa azul

Decidi seguir a dica de uma amiga sobre a prática da meditação. Amiga, não. Irmã. Porque só uma irmã seria capaz de me convencer que eu consigo aquietar a minha tão movimentada mente. 

Para começar, precisava encontrar um lugar em que eu pudesse ser instruída e que, óbvio, fosse de graça. Google. “Meditação de graça em São Paulo.” Encontrei o Centro Shambala de Meditação e que estava localizado a alguns quarteirões de mim. Me programei para a terça-feira. Fui. Incrível, não cheguei atrasada. Fiquei aliviada por isso. Dez minutos antes de a meditação começar, meu celular tocou. Era do trabalho. Eu tinha dez minutos para resolver a questão. Era isso ou eu perderia a minha primeira tentativa de ser alguém focada na vida. Oito em ponto. Não havia mais ninguém lá embaixo. Somente eu. Ao telefone. 

Oito e cinco subi as escadas. Precisei descer de novo porque não tinha tirado o sapato. Desci. Subi. Cinco portas fechadas. Qual era a porta que eu deveria entrar? Escolhi uma. A meditação já estava começando. Causei um breve tumulto até encontrar um lugar para sentar. Sentei. Estava na sala errada. O professor percebeu isso só de olhar para mim.


Troquei de sala. Causei mais um tumulto. Não havia almofadas pra mim. Alguém precisou sair para buscar. Todos precisaram se movimentar para caber mais uma pessoa na sala. Com as pernas cruzadas senti que a minha cirurgia do menisco ainda dava suas caras. Dor no joelho. Dor nas costas. Descobri que iríamos meditar de olho aberto. Era a técnica usada por eles para nos aproximar ainda mais da realidade. Eu não conseguiria nunca. Já sabia. Na minha frente uma garota usava uma blusa de oncinha e toda a minha concentração estava em acompanhar o movimento da blusa enquanto ela se concentrava na própria respiração. Parecia que a onça estava viva. Dei uma olhadinha rápida no professor só para ter certeza de que ele estava meditando mesmo. Ele me flagrou olhando. Senti vergonha. Desviei o olhar. Voltei a me concentrar na respiração. Em vão. Pensei na minhas férias, no trabalho, na blusa de oncinha, no álbum novo do Paul McCartney, na prova de revezamento que vou participar, na blusa de oncinha, na blusa de oncinha, na blusa de oncinha, nas minhas férias, no show do Stevie Wonder, na porcaria da minha mente que não conseguia prestar atenção só na respiração, na blusa de oncinha, na minha vontade de sair correndo, na minha vontade de continuar insistindo, na blusa de oncinha e na minha barriga que roncava e mostrava a todo o ambiente quem é que mandava no pedaço.


Pensa no ar entrando, chegando aos pulmões, pensa em luz azul, amarela ou sei lá qual era a cor. Um celular tocou. Uma menina começou a tirar foto e eu só pensava por que raios Buda estava colocando todas aquelas distrações na minha frente? Eu só queria meditar. O gongo tocou. A meditação acabou. Não foi dessa vez que eu me tornei uma pessoa com foco. Enquanto isso não acontece, continuarei a deixar o bolo a queimar no forno, errarei os caminhos pelas ruas de São Paulo, correrei pensando na lista do supermercado, cairei na rua tropeçando nas raízes das árvores e nos buracos das calçadas e só perceberei que o guarda-chuva estava guardado na bolsa depois de ter tomado chuva achando que tinha esquecido a sombrinha em casa. Semana que vem estarei lá de novo. Inspira, expira e pensa azul.

Quando a morte bate na porta ao lado

Eu só descobri o nome dela um mês antes de ela morrer. Moramos dois anos no mesmo andar e o fato de eu não saber como se chamava a minha vizinha sempre me incomodou, como eu já contei por aqui em texto anterior. Isso mudou em um sábado à tarde quando, ao precisarem de ajuda, fui acionada. A minha vizinha estava escorregando da cadeira de rodas e precisavam de auxílio para posicioná-la corretamente. Nunca tinha feito isso antes e tentei a puxar pelos braços. Ela pediu para eu parar, pois sentia uma forte dor nos ombros. Culpa de não exercitar o braço direito na fisioterapia, foi o que ela me disse. Estava tomando remédios para o alívio da dor, mas não estava adiantando muito.


Nesse dia entrei em casa satisfeita por ter, enfim, aprendido o nome dela. Não era Cida como eu desconfiava desde que mudei para aquele apartamento. Agora, eu não esqueceria mais. E poderia cumprimentá-la devidamente no elevador sem ter que disfarçar a chamando apenas de “vizinha”. Agora “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, “chove né?”, “mas que calorão”, “como vai a família?” e “voltou a frente fria” seriam diálogos devidamente acompanhados pelo nome dela.

Desde aquele sábado não a encontrei mais, nem no prédio, nem comendo esfiha no árabe da esquina e nem em alta velocidade pela Avenida Paulista com a sua cadeira motorizada. Mas, também, não nos víamos com tanta frequência.

Ontem, ao chegar em casa, um aviso no elevador dava o recado: “É com pesar que comunicamos a morte, na manhã de hoje, da moradora Mari.” Mari, era ela, a minha vizinha. Eu tinha decorado o nome dela.

Desci para falar com o porteiro para saber o que tinha acontecido com a Mari. Câncer nos ossos com metástase pelo corpo. Ela estava sentindo umas dores fortes no ombro, me contou o porteiro, até que precisou ser internada, há mais ou menos três semanas.  Ah, as dores no ombro, pensei. Àquelas que ela confundiu com a falta de exercícios na fisioterapia. Sim, ela confundiu. Só soube do câncer quando não havia mais nenhuma chance de tratamento. Também descobri ontem que Mari ficou paralítica há doze anos, de repente. Um dia acordou e não conseguiu se levantar da cama. Estava paralítica. Aos 50 anos precisou se reinventar.


Não éramos amigas, mas eu gostava do movimento que ela causava no andar, com o entra e sai do irmão esquisito, a cuidadora que colocava o lixo para fora todos os dias às 9h20 – assim como eu – e puxava assunto sobre a vida, a morte e o tempo que passamos trabalhando. Nunca trocamos uma xícara de açúcar ou farinha e eu só decorei o nome dela um mês antes de ela morrer. E nem deu tempo de falar “Bom dia, Mari. Frio hoje né?”

Como conheci Marcela


Como conheci Marcela: Ela caminhava na esteira da Linha Amarela com pressa. Carregava livros, cadernos e, em cada ombro, uma bolsa estava pendurada. Sem contar o guarda-chuva, que pingava, e ela o ajustou entre o braço e o corpo e tentava desviar da água que escorria dele para não molhar o sapato. Mas molhou. Quando a vi saindo do metrô pensei que ela poderia ser eu, pois eu com frequência andava cheia de coisas e sempre me arrependia de ser assim quando eu precisava entrar no trem, no ônibus ou simplesmente dar uma caminhada mais longa.

Enquanto Marcela passava pela esteira para fazer a baldeação com a Linha Verde eu fazia a mesma coisa, mas eu estava atrás dela e a observando. Foi quando uma pessoa com mais pressa que Marcela esbarrou nela e todas as coisas de Marcela caíram no chão. Marcela se desequilibrou e também caiu.
Ela se levantou rápido, meio com vergonha, meio com raiva. Quando você já caiu em público fica fácil identificar o sentimento da Marcela e sabe do que estou falando sobre se levantar rápido e querer sair daquele lugar correndo, mesmo que esteja toda machucada. Eu pelo menos sei bem o que é isso. Aparentemente Marcela não estava machucada, só mesmo com vergonha. E com raiva. Loira, ficou vermelha como uma pimenta. 

Marcela não precisou da minha ajuda para se levantar, mas precisou da minha ajuda para recolher as coisas dela que caíram e se espalharam. Só não deu para salvar o batom, pois outra pessoa, que também estava com pressa, pisou nele sem nem notar Marcela. 

Marcela arrumou os livros novamente, pendurou as duas bolsas - uma em cada ombro - ajustou o guarda-chuva, me agradeceu e disse que já estava acostumada: Não era a primeira vez que ela caía em público. "Qual o seu nome?, perguntou. "Maria Fernanda e o seu?" "Marcela". "Prazer Marcela. Boa sorte aí até chegar em casa." 

Nos despedimos e cada uma tomou o seu rumo. Cheguei a pensar que a Marcela, na verdade, poderia se chamar Maria Fernanda. Ou eu poderia me chamar Marcela. 

As pegadinhas do amor

Poderia ter sido um dia como outro qualquer, mas não foi. Aqui o que menos importa é se chovia ou se fazia sol. Se era Verão ou Inverno. Noite ou dia. Escritório ou praça pública. Quente ou frio. Praia ou campo. Brisa ou ventania. O único fator importante daquele dia de abril é que foi quando ela o conheceu. Parece mais uma história boba de amor à primeira vista. Mas que história de amor à primeira vista não é tola? Imaginem se as histórias de amor fossem complexas como calcular logaritmos? Que chatice seria o amor. 

Voltando. Ela tinha certeza que ele tinha sido feito pra ela. Sabe aquele clichê de “é o meu número?” Então, mais ou menos isso.  Moreno, barba por fazer, altura no limite (isso significa que ela poderia usar seus saltos favoritos sem ultrapassá-lo), voz grossa e máscula, poliglota, mais de trinta anos e menos de quarenta, um cabelinho meio rebelde e um jeito relapso de usar a camisa com dois botões abertos e uma parte que saía para fora da calça, como quem quer parecer desarrumado de propósito. Ela tinha certeza que ele era o genro que toda mãe queria. Não, não estava pensando em casamento. Não já. Mas um dia, quem sabe. Ela casaria com ele. Ah, casaria.

Depois desses cinco minutos em que foram apresentados e em que o seu coração pulsou como nunca, um anel na mão esquerda brilhou quando ele foi dizer tchau. Ele era casado. Puta que o pariu. Ele era casado. Ca-sa-do. Óbvio que ele era casado. Nada com ela poderia ser tão fácil. Algumas amigas ainda a aconselharam a investir mesmo assim. Vai que ele nem estivesse tão bem assim com a mulher. Mas ela não queria saber dessa conversa não. Se ele era casado, ela estava fora. E decidiu que assim seria. Evitou todos os olhares no café, na máquina de refrigerante, no elevador. Não riu das piadas dele durante o almoço, não aceitou os convites para tomar um ar lá no jardim de Inverno, nem para uma água com gás com gelo e limão. Sofreu, chorou, foi para a terapia, para a cartomante, para o pai de santo. Xingou. Blasfemou. Maldita aliança que não parava de reluzir e não lhe saía do pensamento.

Meses se passaram. Ela arrumou outro. Nada como uma nova paixão para curar a antiga. E esse é mais um clichê, mas quem liga pra isso? Estava descontraída, feliz com o novo namorado. Então, aceitou o convite para o café. Enquanto conversavam sobre o novo presidente da empresa - aquele pedante, grosseiro e machista -, ela teve tempo para fixar os olhos na aliança dele sem compromisso. Sem pressa. Afinal, já tinha até esquecido que ele tinha nascido para, quem sabe um dia, ser seu futuro marido. Olhou, olhou, olhou. Reparou bem. Muito bem. Não era possível. Não, não, não. Não é possível. Olhou de novo. Sim, era isso mesmo. Encarou a realidade. Aquilo não era uma aliança. Era um terço em forma de anel. Além de tudo, religioso. 

Maldito Facebook

Ela me contou a sua história de amor e pediu para que eu a escrevesse. A história poderia ter sido escrita por ela mesmo, de tão linda que é, mas ela não queria que soubessem de quem se trata. Então, ficou assim:

De óculos escuros, cabelos presos, e uma roupa qualquer, ainda olhando para a área de embarque enquanto ele se ia, ela chorou. Chorou de soluçar. Chorou de perder as forças, chorou até faltar o ar. Chorou de fazer barulho. Chorou de doer. De doer a alma. Chorou sozinha. E foi embora sozinha. Ele não voltaria mais. Ela sabia. Pelo menos não mais para a vida dela. Mas para preencher a vida de alguém ele estava voltando.

Conheceram-se durante um trabalho esporádico, daqueles intensos, que te deixam sem casa e sem vida por alguns meses. Mas que vale a grana paga. Ela na cidade dela e ele fora da cidade dele.  Foi amor ao primeiro telefonema. Ficaram um mês se apaixonando um pelo outro somente pela voz. E quando não tinham motivos para se falarem por telefone, arrumavam um. Ambos sabiam que aquela ligação era somente uma desculpa para se ouvirem. Ela gostava da voz dele. Ele achava ela engraçada. Parecia que se conheciam há anos. Quase que de outra vida. Sim, chegaram a suspeitar que era coisa de reencarnação.

Viram-se pessoalmente. Meu Deus, ele não era só aquela voz bonita do telefone. Deu choque já nos primeiros segundos do encontro. Mas era um encontro de trabalho e não amoroso. Contiveram-se. Ela fala que ouvia barulhinho de alta tensão só de relar nele, tamanho era o choque. Ela descobriu que ele namorava. Ficou decepcionada. Ficou brava. Ficou triste. Ficou com raiva da vida. Decidiu que iria resistir ao amor. Ele concordou. Mas ninguém resistiu a nada. O cupido havia acertado a flecha. Não era só a conhecida química explosiva – pele e cheiro – mas também tinha cumplicidade na troca de olhar, no sorriso, nas conversas, nos abraços e nos carinhos. Era sexo, sim. Mas também era coração.

Foram dois meses assim e ambos achavam que, enfim, a vida seria generosa com eles. Tinham tudo, mas faltava o amor. E o amor estava ali agora. O trabalho temporário acabou. Corações ficaram aflitos. Ele precisava voltar para a cidade dele. Para o Estado dele. Para a namorada dele. E ele voltou. E foi ela quem o levou até o aeroporto. Depois da despedida, chorou mais dois dias na cama. Sem sair se quer para comer. Mas decidiu que era hora de levantar – da cama e para a vida – e assumir os riscos que saberia que iria enfrentar quando disse sim a ele.

A vida tomou o seu rumo e ela continuou a buscar um amor. Nunca mais se falaram. Dia desses resolveu matar a saudade vendo fotos dele no Facebook. Descobriu que ele e a namorada haviam se casado. Ficou em choque. Mais um dia chorando na cama. Não tem muita certeza, mas acha que ele era o homem da vida dela. Pelo menos até hoje. Maldito Facebook. 

Ninguém sabia o nome de ninguém

Não saber o nome dela sempre a incomodou. Afinal, dos quatro apartamentos do quinto andar só dois estavam ocupados: o 54 e o 51. E não era tão difícil decorar o nome da sua única vizinha. Ainda mais quando a sua única vizinha era a sua única vizinha há dois anos. Mas não, ela nunca conseguiu decorar o nome dela. Imaginava que era Cida. Mas sempre que se encontravam, fosse no elevador, fosse no hall de entrada, a moradora do 54 só a cumprimentava como “vizinha.” Era “oi vizinha” pra cá, “oi vizinha” pra lá. Técnica devidamente aprendida com seu pai para não passar vergonha de sempre perguntar por nomes já antes questionados. 

A moradora do 54 tinha perguntado para o porteiro o nome da moradora do 51 mais de uma vez. Tudo em vão. Só conseguia pensar em Cida, mesmo tendo certeza que Cida não era o nome dela. Cida, que não era Cida, estava sempre na companhia de sua cuidadora, cujo nome a moradora do 54 também não fazia ideia de qual era, mesmo elas se encontrando todos os dias, às 9h30, quando iam colocar o lixo para fora e conversavam sobre o tempo, a correria e a vida. A moradora do 54 nunca soube se Cida é divorciada ou viúva. Ou se, no alto dos seus 60 anos, nunca se casou. Cadeirante, precisa de ajuda para entrar no elevador, mas pode ser encontrada pelas calçadas da Avenida Paulista em alta velocidade em sua cadeira motorizada.

Cida tem um irmão engraçado, que de tempos em tempos aparece para visitar a irmã. E, quando chega, não vai embora antes de completar pelo menos um mês. Ele é diretor de teatro em Manaus e quando está em São Paulo realiza saraus na Benedito Calixto. Todas as vezes fala que vai convidar a moradora do 54. Mas nunca o fez. Deve esquecer. Ou só fala da boca pra fora mesmo. Ele também sabe cantar Happy Birthday to You em tupi-guarani e uma vez o fez para a moradora do 54 enquanto eles estavam no elevador. A moradora do 54 riu muito. A moradora do 54 também não sabe o nome dele. Mas ele também não sabe o nome dela porque todas as vezes que se encontram, ele pergunta “como é mesmo que você se chama?” Ela responde, mas nunca devolve a pergunta. Acho que tem um pouco de preguiça.

Num sábado à tarde, a moradora do 54 assistia a algum episódio de alguma série de televisão deitada em sua cama (ela adora séries de televisão). A campainha tocou. Mas a moradora do 54 achou que fosse engano. E não atendeu. Tocou de novo. Podia não ser engano. Na ponta dos pés se dirigiu ao olho mágico. Imaginou que não adiantaria nada estar na ponta dos pés porque sua sombra poderia ser notada do lado de fora, pela fresta da porta, mas foi na ponta dos pés mesmo assim, caso fosse necessário disfarçar que não tinha ninguém em casa.  Era uma mulher vestida de branco, com jeito de preocupada. A moradora do 54 resolveu atender.  “A Mari está escorregando da cadeira. Você pode ajudar?”


Mari, então era esse o nome dela. Ainda bem que nunca tinha a chamado de Cida, pensou a moradora do 54 enquanto se dirigia descalça ao apartamento vizinho. Mari, enquanto era ajudada pela moradora do 54, olhou bem nos olhos dela e perguntou: como é mesmo que você se chama? Ela também não sabia meu nome, pensou aliviada a moradora do 54. Agora sim, estavam quites. A moradora do 54 voltou para casa e apertou o play para finalizar o episódio. Era o último da terceira temporada.

Pelo menos foi o que o seu Antunes me disse


Duas irmãs visitavam a família e passavam férias na Paraíba. Era agosto de 2011. A cunhada precisou voltar porque o marido teve um AVC. Em dois dias conseguiu chegar em São Paulo. No terceiro dia, o pai morreu, lá na Paraíba. Mas não deu tempo de ela voltar para o enterro e também precisava cuidar do marido, que continuava internado. Vinte e oito dias depois, o marido morreu. Mas pelo menos dessa vez ela estava presente para o enterro. Em 2013, ela voltou para a Paraíba, novamente acompanhada da irmã. Queria tirar as férias que não conseguiu em 2011. No meio das férias, ela precisou voltar de novo para São Paulo. O filho foi internado às pressas com uma infecção generalizada. Tem vinte e seis anos. Mas é mirradinho, sabe? Pelo menos foi que o seu Antunes me disse no curto trajeto de carro entre a Vila Mariana e o Paraíso. Antunes, católico, pensa até que chegou a hora de procurar um terreiro de umbanda para tirar a ziquezira. Ele diz que sofre pela cunhada e sofre pela mulher, que sé só lamentação por causa dos percalços da vida da irmã. As duas nunca se desgrudaram desde o nascimento. Gêmeas. Unha e carne. Pelo menos foi o que ele me disse. Talvez se o sobrinho fosse forte como um touro, Antunes tivesse mais fé que ele sairia dessa e a cunhada poderia voltar para a Paraíba e tentar mais uma vez descansar sem ter de pensar sempre no pior. Pelo menos foi isso o que Antunes me disse naquela corrida de táxi que não ultrapassou R$ 11.

Uma avant-première para esquecer

Conseguiu enxergar nas letras miúdas do convite que antes do início da sessão um coquetel seria servido. Pensou que só as pessoas importantes eram convidadas para pré-estreias e eventos com coquetel. Não que ela fosse importante. Mas ganhou o convite e não costuma recusar nada que é dado. Ainda mais quando o presente vem do chefe. A primeira coisa que fez quando o marido chegou em casa foi contar que teria um evento importante na próxima semana. “Certeza que servirão prosecco”, pensou, mas não comentou isso com o marido para não parecer que estava mais entusiasmada do que deveria . Mas era a primeira vez que ela recebia o convite para uma avant-première. É assim que eles chamam pré-estreia.  Eles quem? “As pessoas que frequentam esses lugares”, pensou, mas não disse.

Gente descolada. Gente com armações de óculos grandes e coloridas. Gente de cabelos vermelhos e despenteados. Gente fina. Porque esse pessoal de arte, de cinema, de televisão é tudo fino, pensou. Não que ela não fosse fina. Mas estava acostumada a frequentar locais com mulheres de tailleur e homens de terno e não festas com pessoas que combinam meia-calça vermelha com tênis All Star verde. Verde e de cano alto. E com cadarço laranja. Ela é advogada. De um escritório lá no Centro. Perto da Igreja da Sé. Conhecem? Refiro-me à igreja. O escritório com certeza vocês não conhecem.

Chegou o dia da avant-première, que ela não sabia direito nem como pronunciava essa palavra. Como ganhou o convite, ia sozinha. Mesmo sem conhecer ninguém. Uma amiga havia lhe dito para comer uma coisinha antes. “Nem que seja um pão de queijo.” Ela não entendeu direito porque precisava comer se haveria coquetel. Não comeu. Achou melhor economizar o dinheiro e comer de graça mesmo. Foi direto do trabalho. Só retocou a maquiagem. Não ia dar tempo de trocar de roupa. Mora na Zona Leste. Estava com uma foooooome. “Ainda bem que vai ter comida”, pensou.  

Pegou um trem e dois metrôs para chegar. Foi ao toalete e retocou de novo a maquiagem. O lápis de olho estava meio borrado. Perguntou ao segurança como fazia para chegar ao coquetel. “Só com convite”, ele respondeu. Não era isso que ela queria saber. “Só seguir reto nesse corredor”, consertou o segurança. “Idiota. Eu tenho convite”, pensou, mas não disse.

Ela estava, sim, um pouco ansiosa para a sua primeira pré-estreia, que teria a presença do diretor do filme e até alguns atores, que iriam conversar com os convidados no final. Quando encontrou o local do coquetel tomou o seu primeiro susto. “Que aperto”, pensou. Estava se sentindo praticamente no metrô no horário de pico. Ficou na ponta dos pés para tentar avistar em qual local o prósecco estava sendo servido. Avistou. Era longe. Imaginou que o garçom não chegaria até ela e decidiu se aventurar pelo salão. Chegaria ao local da bebida custasse o que custasse. “Dá licença, dá licença, dá licença.” Esbarrou numa senhora, o copo se espatifou no chão e o líquido espirrou na meia-calça vermelha. Na meia-calça da senhora e não na dela. A dela era cor da pele e não vermelha. Jamais usaria uma meia-calça vermelha, pensou. Pediu desculpas. Sentiu vergonha. Mas continuou a saga até o local das bebidas. Precisou dar umas cotoveladas para conseguir alcançar o destino final. Ela jamais confessaria para alguém que deu cotovelada nas pessoas. Afinal, isso não era fino. Se alguém visse, negaria até o final ou diria que foi sem querer. Mas sem um pouco de brutalidade teria assistido ao filme sem um mísero gole. Ufa, chegou. O garçom mandou esperar um pouco que precisava buscar mais garrafas na cozinha. E mais taças. Faltavam vinte minutos para a sessão começar. “Vinte minutos é o suficiente para eu tomar duas taças”, pensou. Não foi. Tomou só uma. Virou em dois goles. “Garçom lerdo”, pensou.


Na ponta dos pés novamente tentou avistar um garçom. Precisava comer um salgadinho que fosse. Lá vinha ele na sua direção. Resolveu esperar. Mas quando o garçom chegou a bandeja já estava vazia. Decidiu que ia esperar na porta da cozinha mesmo. Conseguiu chegar dando leves cotoveladas em uns dois ou três, mas pedindo desculpas na sequência. O garçom abriu a porta com a bandeja cheia de canapés. Canapés que ela sequer sabia o nome. Incrível, várias pessoas tiveram a mesma ideia que ela e uma multidão aguardava o pobre garçom no mesmo local: a porta da cozinha. Conseguiu alcançar, a cotoveladas, um salgado que ela não faz ideia do que era, mas tinha damasco e nozes e queijo. Tudo junto numa cestinha. Preferia uma empadinha de camarão. Não tinha. Ela queria era um gole de prosecco para empurrar aquela coisa. Não tinha. A sessão começou. Entrou. Não conseguiu ficar até o fim. Sua barriga começou a roncar. A pressão baixou. Não comia desde a hora do almoço. Saiu. Parou no boteco mais próximo. Sentou naquelas cadeiras de plástico que ficam na calçada. Comeu uma esfiha de carne. Comeu outra de queijo. Pediu uma cerveja de garrafa. “Garçom, manda também uma porção de amendoim. E mais uma cerveja, por favooooooor.” Na próxima pré-estreia, se for convidada para uma, irá seguir o conselho da amiga e comer uma coisinha antes, nem que seja um pão-de-queijo, pensou. E contou toda a sua história para o garçom. "Gente mais besta", respondeu o garçom. E completou: "O que é avant-première?"

Um sonho de casamento

Diz que está solteira por opção. Opção dos homens, claro. Aos 28 anos, ela só pensa em se casar. Às amigas que namoram, ela só sabe perguntar quando é que será o casório. Às já casadas, não se cansa de perguntar quando chegam os filhos. As amigas já nem se importam mais. Não vão brigar com a colega solteira que guarda – e assume – um Santo Antônio de cabeça para baixo e afogado em um copo d´água trancado na escuridão do armário da lavanderia. Ela também come ao menos dois pedaços de bolo durante a festa de Santo Antonio e leva mais um naco para casa que é só para garantir. Garantir o que? Até agora, nada. Santo Antonio, esse impiedoso. Ou vai ver que ele só está esperando a hora certa para apresentar a ela aquele que será o responsável por lhe proporcionar a felicidade eterna. Eterna enquanto durar, claro. Ela insiste em maldizer Santo Antonio. As amigas casadas já tentaram a convencer a parar de maltratar o santo desse jeito. Mas nada é capaz de convencê-la.

Dia desses, de tanto sonhar acordada com o dia do próprio casamento, acabou por sonhar dormindo mesmo. Ela estava vestida de noiva e a caminho da igreja. Era um lindo vestido de renda, com véu e grinalda. Pelo caminho, a pobre noiva ia se dando conta de que não se lembrava quem era o noivo. E tinha ataques de loucura e gritava que não iria mais se casar. Ela encontrou os primos pelo caminho e perguntou a eles quem era o noivo. Todos riram, gargalharam, caçoaram dela, mas não contaram quem era o seu futuro marido. O desespero só aumentava. E ela em prantos. Quando chegou até a porta da igreja e espiou pelo lado de dentro, se deu conta que já estava atrasada e que todos a esperavam, mas os penteados das mulheres já começam a se desfazer e o mundo ficou preto e branco para a noiva desesperada. A conversa entre os convidados era que não haveria mais casamento e todos já se levantavam para deixar a igreja.

Enquanto o mundo desmoronava diante dos seus olhos, a noiva avistou os pais, também em prantos, e pensou que mesmo sem saber quem era o noivo, casaria mesmo assim, pois o pai e a mãe era tudo que ela tinha no mundo e não queria matá-los de desgosto e fazê-los passar tamanha vergonha diante de uma sociedade que havia se arrumado só para vê-la. Além do que, claro, essa poderia ser sua última chance de não morrer sozinha.

Foi então que decidiu entrar na igreja. E se deu conta de que estava com um bebê no colo. Meu Deus, ela já tinha um filho. A música começou e ela se dirigiu rumo ao altar, a passos lentos e curtos, mas os convidados a olhavam com cara de espanto, como se o destino dela fosse a morte. As pessoas começaram a se acomodar novamente. A mãe a abraçou, chorando de soluçar, e pediu a filha que não a abandonasse. A noiva continuou rumo ao altar. O noivo a aguardava com um fraque impecável, cinza, como a cor dos seus olhos. Mas ele estava de costas e não se moveu um só milímetro, nem para um lado e nem para o outro. Quando ela tocou em seu ombro e ele preparava para olhar para receber a noiva em seus braços, o despertador tocou e o sonho foi bruscamente interrompido. Isso já faz um mês. Ela continua sem saber o rosto dele. E todos os dias, desde então, pede a Deus que a deixe sonhar tudo de novo, mas que o noivo não a espere de costas.

P.S: Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência

O vai e vem da vida

Duas irmãs visitavam a família e passavam férias na Paraíba. Era agosto de 2011. A cunhada precisou voltar porque o marido teve um AVC. Em dois dias conseguiu chegar em São Paulo. No terceiro dia, o pai morreu, lá na Paraíba. Mas não deu tempo de ela voltar para o enterro não e também precisava cuidar do marido, que continuava internado. Vinte e oito dias depois, o marido morreu. Mas pelo menos dessa vez ela estava presente para o enterro. Esse ano, ela voltou para a Paraíba, novamente acompanhada da irmã. Queria tirar as férias que não conseguiu em 2011. No meio das férias, ela precisou voltar de novo. O filho foi internado às pressas com uma infecção generalizada. Tem vinte e seis anos. Mas é mirradinho, sabe? Pelo menos foi que o seu Antunes me disse no curto trajeto entre a Vila Mariana e o Paraíso. Antunes, católico, pensa até que chegou a hora de procurar um terreiro de umbanda para tirar a ziquezira. Ele sofre pela cunhada e sofre pela mulher, que sé só lamentação por causa dos percalços da vida da irmã. As duas nunca se desgrudaram desde o nascimento. Gêmeas. Unha e carne. Pelo menos foi o que ele me disse. Talvez se o sobrinho fosse forte como um touro, Antunes tivesse mais fé que ele sairia dessa e a cunhada poderia voltar para a Paraíba e tentar mais uma vez descansar sem ter de pensar sempre no pior. Pelo menos foi o que o Antunes me disse. 


Troco o cartão da Porto Seguro por um Bilhete Único com créditos

Se alguém disser por aí que vendi meu carro porque nunca aprendi a fazer baliza eu nego até a morte. Nego que tenha vendido por esse motivo. Mas confirmo que nunca realizei uma baliza com primazia nesses dez anos motorizada. Nunca mesmo. Em todas que consegui chegar até o fim foram atos que me fizeram suar - independente da temperatura externa - e soltar alguns palavrões e pensar em maneiras de como criar um mecanismo que fizesse o carro se encaixar sozinho na vaga, de cima para baixo. Como um bloco de concreto ou uma peça de lego. Sei lá. Algo prático e fácil. Como deveria ser tudo na vida. Não falo isso com orgulho. Mas também não é nenhuma grande tragédia, convenhamos. É só uma baliza. É não. Era. Desde que vendi meu carro, há um ano, me livrei desse peso, desse carma, desse grande exercício físico e emocional que é o ato de realizar uma baliza. Multiplique por quatro o sofrimento quando o bar inteiro interrompe seus chopes e porções de batatas-fritas com ketchup para simplesmente te observar e fazer um bolão de que "certeza que ela vai subir na calçada, quer apostar?"

Já são 365 dias sem carro. Trezentos e sessenta e cinco dias que ele se foi para nunca mais voltar. Nunca diga nunca. Tá bom. Vou reformular a frase. Trezentos e sessenta e cinco dias que ele se foi. Ponto. Eu até gostava dele, mas nada de mais. No fundo, no fundo a gente só se dava bem porque ele era adaptado para transportar a minha bicicleta. E só. Tanto que em trezentos e sessenta e cinco dias sem ele só senti saudades uma vez, que foi ao ir para Bauru passar o Natal. Se ele ainda estivesse comigo a bicicleta teria ido junto. No lugar da magrela, levei tênis de corrida. Tudo bem também.

Vendi o carro porque a gente nem se encontrava mais. Eram 30 dias de ausência. Não há relacionamento que suporte toda essa distância, descaso e omissão. Às vezes descia até a garagem só para ver se ele ainda estava lá e fazer um carinho. Mas já não era mais a mesma coisa desde quando nos conhecemos. Havia chegado a hora de dizermos adeus um ao outro e ficarmos apenas com as boas lembranças. As más lembranças, como o dia em que o vidro elétrico travou na chuva, ou aquela vez que o motor pifou durante as férias, ou naquela noite em que o som foi levado pelos bandidos - esses ordinários que nos assombram diariamente - ou aquele sábado em que o pneu furou na estrada solitária, tudo isso já foi perdoado, mas devidamente computado na hora de assinarmos o nosso divórcio. Não vou nem falar sobre o IPVA, o seguro e a inspeção veicular. E também não vou escrever sobre as multas e preços exorbitantes dos estacionamentos.

Hoje ele foi devidamente esquecido por mim e espero que esteja fazendo bem a alguém, como me fez por um tempo breve. Troquei o cartão da Porto Seguro pelo cartão Fidelidade do Metrô e pelo Bilhete Único. Troquei o som do carro por um iPod repleto com músicas de rock e soul. Tem um Bob Marley também para os dias mais difíceis. Troquei a chave do carro pelos aplicativos de táxi. Isso sim é a grande invenção da humanidade. Aproveito aqui o momento para agradecer aos desenvolvedores desses aplicativos. Obrigada, vocês melhoraram muito a minha vida. Também tenho, como garantia, uma lista de taxistas amigos que podem levar minha bicicleta para lugares aonde não consigo chegar pedalando. Troquei os sapatos duros, que me causavam bolhas no calcanhar, por alguns modelos mais confortáveis e nem tão bonitos assim. Desculpem mulheres de salto de plantão, mas na vida é preciso optar entre a beleza e o conforto. Fiquei com a segunda opção.

Antes de continuar o texto reforço o que digo sempre: não quero impor meu modo de vida a ninguém, mesmo porque eu moro do lado do metrô e da Avenida Paulista, o que me permite o acesso fácil aos transportes públicos, que não, não são de qualidade. Além do mais, moro perto do meu trabalho. Portanto, a decisão de vender o carro foi tomada pensando em todas essas facilidades. Mas também preciso dizer que nunca fui apegada a automóveis. Desde que me mudei para São Paulo meus finais de semana já eram preenchidos com metrô, táxi e pernadas. As saídas à noite também. Afinal, nunca quis me preocupar com Lei Seca e sempre tive muito medo de causar um acidente e ferrar a minha vida de uma vez por todas. Preferia ir de passageira num táxi qualquer ao invés de abdicar da cerveja. Quando eu tinha 18 anos quase atropelei um motoqueiro ao sair de uma boate. Eu tinha bebido. Depois disso, nunca mais bebi e dirigi.

Não vejo carro como status. Acho apenas um meio necessário de locomoção. Mas parece que a regra hoje é mais ou menos assim: quem nunca teve, quer ter - o que é justo. Quem tem um pequeno, quer um grande e quem tem um grande quer ter dois grandes - que não sei se é justo. E também não tenho nada com isso.

E, tem mais. Tenho achado as pessoas meio loucas ao dirigir em São Paulo. Insanas mesmo. Nem parece que aquele cara dirigindo de maneira alucinada e buzinando para a velhinha de bengala sair da frente é aquele pai doce e carinhoso com os filhos. Tenho medo de ficar assim. Mais louca. E mais insana. Porque já tenho um pouco - ou muito - dessas duas características.

Taxistas se tornaram meus melhores amigos. Vocês não sabem como pode ser divertido uma boa conversa com esses motoristas. Eles têm maravilhosas histórias para contar. Também preciso dizer que me sinto ótima sempre desembarcando na porta dos estabelecimentos. Quando você é uma motorista que não sabe fazer baliza, tem o costume de parar na primeira vaga fácil que encontra e isso pode estar há quilômetros do seu destino final. Uma vez caminhei por 12 quarteirões. Não lembro quando foi a última vez que dirigi um carro. Se dirigir for como andar de bicicleta talvez eu ainda consiga. Se não for, avisem logo, pois posso ter me tornado um perigo no trânsito.

Dos tipos que encontramos no cinema

Tem gente que tira o sapato, tem gente que não desliga o celular, tem gente que não desliga o celular e atende o telefone baixinho quando o aparelho toca, tem gente que deixa o telefone no silencioso, mas continua a se comunicar pelo whatsapp, tem gente que coloca o pé na própria poltrona, tem gente que coloca o pé na poltrona da frente, tem gente que coloca o pé na poltrona da frente e fica chacoalhando, tem gente que fica comentando o filme todo com a amiga do lado, tem gente que fica beijando o namorado, tem gente que come pipoca, tem gente que come sozinha um saco de pipoca gigante, tem gente que divide a pipoca, tem gente que não divide nem a pau, tem gente que come a pipoca toda ainda nos trailers, tem gente que termina o filme sem ter terminado a pipoca, tem gente que não come pipoca, tem gente que prefere bala, tem gente que prefere chocolate, tem gente que só toma água e tem até gente que toma vinho acompanhado com tábuas de frios servido por garçom.  Tem gente que chega atrasada, tem gente que chega atrasada e liga o celular para fazer de lanterna e tentar encontrar a poltrona, tem gente que deixa o lixo na poltrona depois que o filme termina, tem gente que leva o lixo para o lugar certo, tem gente que levanta assim que o filme acaba, tem gente que só levanta quando os créditos se encerram, tem gente que chega e já procura as saídas de emergência caso o local pegue fogo, tem gente que mal enxerga os degraus, tem gente que vai sozinha, tem gente que não vai sozinha por nada nesse mundo, tem gente que leva a mãe, tem mãe que leva o filho, tem filho que leva o irmão, tem irmão que leva o sobrinho e tem sobrinho que leva a tia. Tem gente que já dá problema na fila. Tem gente que paga meia entrada mas não leva o comprovante, mas quer pagar meia entrada mesmo assim, tem gente que não consegue decidir por nada nesse mundo qual poltrona livre irá sentar, tem gente que pede a opinião da atendente para decidir qual poltrona sentar, tem namorado que paga para a namorada, tem namorado que só paga o próprio bilhete, tem gente que esquece o cartão e não consegue pagar, tem gente que reclama do ar condicionado, tem gente que reclama do calor, tem gente que antes vai às compras e entra para o filme com sacolas que fazem barulhos, tem gente que dorme, tem gente que dorme e ronca, tem gente que sai no meio do filme, tem gente que aguenta até o final por pior que seja, tem gente que levanta para ir ao banheiro, tem gente que levanta para comprar mais pipoca, ou mais coca-cola, tem gente que gosta de sentar nas poltronas do canto, tem gente que prefere as salas VIP, tem gente que prefere as poltronas do canto para namorar, tem gente que reclama do preço, do tamanho da sala e da projeção, tem gente que só vai ao cinema aos finais de semana, tem gente que se arruma para ir ao cinema como se fosse uma festa, tem gente que só gosta de filme alternativo, tem gente que só assiste blockbuster, tem gente que assiste qualquer coisa e tem até gente que assiste musical-iraniano-de época, tem gente que vai muito, tem gente que vai pouco e tem gente que não vai ao cinema porque nem gosta de filme.
Todos nós temos um pouco de tudo ou um tudo de pouco, mas ontem eu conheci um novo tipo de gente no cinema, aquele tipo que lê as legendas em voz alta. Esse tipo também pode ser classificado como gente que faz você se desconcentrar dos filmes ou ainda gente que te faz ter vontade de pedir para ela parar com isso peloamordedeus ou ainda gente que te faz pensar que cada um tem mesmo a sua estranha mania.

Nunca usei roupa P. Nem mesmo quando nasci

Quem é você? Como assim quem sou eu? É, Maria Fernanda, quem é você? Ah, eu sou uma pessoa que faz regime desde quando nasceu e que não acredita nas pessoas que dizem usar roupa tamanho P. Essa sou eu.

Eu sempre duvido de alguém que diz que veste tamanho P. As roupas já deveriam começar no tamanho M. Eu nunca usei uma roupa tamanho P. Nem quando nasci. Tenho a sensação de que o que meu primeiro macacão já era G. Eu não vim ao mundo acima do peso o suficiente para que já pensassem: nossa, ela vai ser gorda. Mas com poucos meses meu pai, pediatra, me pegou nessa região que fica entre os ombros e o pescoço e que eu não sei o nome e comentou com a minha mãe “xi, nossa filha está acima do peso e corre o risco de ser gorda, melhor começarmos a controlar a partir de agora.” Por isso digo que ninguém entende mais de regime do que eu. Se eu tenho 32 anos, há exatos 32 faço regime. É uma vida dura, amigos.

Vocês podem até dizer “ah, mas você não é gorda.” Sim, eu sou. Acreditem. Só não estou no momento. Mais ou menos como os Alcoólatras Anônimos. Sabe aquela coisa: só por hoje eu não comi uma coxinha, só por hoje eu não faltei à academia, só por hoje eu estou magra. Magra, magra, não. Nunca fui e nem nunca serei. Dizem que para você ser uma pessoa magra de verdade é preciso parar de pensar gordo. Tenha dó. Como se isso fosse possível. Tem até livro com título assim. Mas isso é igual autoajuda, só serve para quem escreve ganhar dinheiro. O gordo lê, mas continua gordo. O depressivo lê, mas continua depressivo. Mas quem se importa? O dinheiro do livro foi pago. 

Meu pensamento é gordo. Gordíssimo. E ponto final. Ir para a academia às seis horas da manhã é para mim uma obrigação, assim como é trabalhar. Ah, vão falar que vocês gostam de ficar lá puxando ferro enquanto uns brutamontes ficam gemendo se olhando no espelho e mulheres metidas a Gracyane Barbosa desfilam nas suas calças de ginásticas brancas e transparentes? Eu não gosto nem de trabalhar e nem do ambiente de pessoas saudáveis. Mas eu frequento. Fazer o que? Gosto mesmo é de ser sedentária. Se pudesse, não sairia do sofá. Um dia perguntei ao meu pai se eu poderia ser considerada obesa na infância e sem pestanejar ele respondeu "Sim, claro que sim." Lembro desse dia. Estávamos sentados no quintal de casa. Era um dia de churrasco em família e bebíamos cerveja. 

Pois é. Voltando. Sempre perco o foco. Acostumem-se. Fazendo regime desde um ano de idade - mãe, por favor me corrija se eu estiver errada – já experimentei de tudo. Quando digo experimentar de tudo me refiro a dietas, claro. Dos pontos, da lua, do sol e do mar. Do inverno, do verão, do outono e da primavera. Da sopa, da proteína e do carboidrato. Diet Shake, Vigilantes do Peso e Herba Life. Leite, só desnatado. Pão? Desde que seja sem miolo. No lugar do açúcar, o adoçante. Chocolate nem pensar. Bolacha recheada nunca. Na lancheira da escola, uma maçã e biscoitos de água e sal. Jazz, balé, natação, patins, corda e bicicleta. Qualquer coisa que fizesse a gordinha se mexer e perder algumas calorias e, claro, quilos. Muitos quilos.

Apesar de crianças serem maldosas com amigos gordos, não me lembro de ter sofrido muito preconceito. Umas piadinhas infames aconteciam até que com alguma frquência, mas eu era querida entre os colegas. Gordinhos sempre são queridos. Tenho essa impressão. Como eu era legal, eles me davam bolachas recheadas na hora do recreio. E minha mãe, tão empenhada, achando que eu só comia os biscoitos de água e sal. Aqueles que já mencionei lá em cima. Às vezes até vinham com requeijão – light, claro – ou uma miséria de margarina.

No dia que minha mãe me deu um tomate para comer, eu fingi que comi. Mas ela o encontrou intacto no lixo do banheiro. Pegava a minha bicicleta Ceci amarela com cestinha cor de rosa e ia comprar escondida paçoca e sonho de valsa na quitanda a dois quarteirões de casa. Mas a forma de pagamento era a caderneta da minha mãe e ela sempre descobria no final do mês a minha travessura. Estava explicado porque nenhum quilo se ia nas aulas de natação. Mas que menina rebelde, dizia a minha mãe. A japonesa dona da quitanda um dia desconfiou de mim e perguntou “sua mãe sabe que você compra com a caderneta dela, menina?” E eu prontamente respondi “mas é claro, a senhora por algum acaso está desconfiando de mim?” Menti.

Devido ao sobrepeso, está pregada no mural de família da casa dos meus pais uma das fotos mais emblemáticas da minha infância: eu, numa fantasia de zebra que era apenas um short e um top. Se não me engano, era uma roupa usada na apresentação do jazz que foi adaptada para o Carnaval. O fato é que ao lado do meu irmão loiro, magro e de olhos azuis, estava a caçula, com uma barriga de não causar inveja a nenhum mortal. Mas papai, sabe-se lá porque, não teve dúvidas na hora de fixar aquela imagem no mural. Está lá até hoje. Fica no corredor principal da casa. Todas as visitas têm acesso. Trauma superado. Bola para frente.

Um dia, cansei de ser gorda. Em dois meses emagreci 18 quilos. Parei de comer e não saía da academia. Estava no segundo colegial, tinha 16 anos, e a única obrigação era colocar o meu shorts de ginástica e a camiseta velha que ia até o joelho, que tanto poderia ser usada como pijama ou como pano de chão. Aos poucos, todas as minhas roupas iam escorregando do meu corpo e ajustes já não seriam suficientes. Deixei de calçar 37 e comecei a usar 35. Nunca mais pisei numa balança. Se perguntarem o meu peso hoje, não sei responder. Pode ser dos 50 aos 70 quilos. Aniversário retrasado, uma amiga me presentou com uma blusa vermelha, de alças, tamanho P. Antes de provar, já procurei qual era o nome da loja para trocar pela M. Como pode alguém achar que caibo numa roupa desse tamanho? Fui até a loja, mas a vendedora insistiu para que eu vestisse aquela peça mesmo. Resolvi provar a ela a minha tese de que “eu nunca usei roupa P, nem mesmo quando nasci” e, por isso, vesti a blusa vermelha de alças. Serviu. Serviu, meu Deus, serviu.

- Falei pra você que ia servir, disse a vendedora loira de seios fartos e lábios com botox. Nossa numeração é maior. Nossos tamanhos P são como se fossem M.

- Obrigada, respondi. 

E fui embora com aquela blusa P embaixo do braço. Já faz dois anos que ela está na gaveta. Nunca foi usada. Vou colocar na sacola de doação assim que chegar em casa.

E quando você acha que ninguém viu...

(Para entender esse texto, primeiro é preciso ler o que está abaixo dele. Vai lá.)

Ela jura que ninguém viu nada. É o tipo de gente que deve se enganar com tudo na vida. E fica espalhando isso, como se fosse uma vitória. Vitória? A menina sai de lá sangrando, toda ferrada, e ainda acha que foi a glória ninguém ter visto. Eu vi. Vi tudo. Tudinho. Desde a hora que ela virou a esquina e entrou na rua. A rua da amargura. Não chama rua da amargura não, antes que vocês achem que se trata de uma piada. De mau gosto, claro. Mas é como se fosse. Como se fosse uma piada, de mau gosto, e como se fosse mesmo a Rua da Amargura.  E não estou falando isso por ela não. Mal a conheço. Estou falando isso por mim, que sou obrigada a conviver diariamente com os carros passando em alta velocidade. E as buzinas? Meu Deus, como vocês são chatos. Não vou nem falar da fumaça porque já devem estar cansados desse papo: trânsito, engarrafamento, poluição.

Assim, não posso dizer que fiquei com dó dela. Dó. Tenho dó é de mim, que vim parar aqui depois de uma briga com a família e a Capital foi o que me restou. Não sei vocês, mas eu acordo bem cedo para trabalhar. A minha vida é bem dura viu? Se fosse no Interior tudo seria mais fácil. Mas aqui em São Paulo ninguém dá a mínima pra gente. Mas, voltando à história da Maria Fernanda. É esse o nome dela né? Então, foi bem engraçado. Dei tanta risada que até chorei. Tenho dessas: toda vez que rio muito, lágrimas saltam dos meus olhos, como nos desenhos animados.

Mas todos riem  – riem não, gargalham – toda vez que ela se estatela no chão. Vocês precisavam ver a cara dela olhando o sangue que tomava conta da jaqueta branca que ela usava. Parecia novinha a jaqueta. Hahahaha. Tomou o cotovelo todo. Estou rindo pela cara dela e não pelo sangue. Parecia se importar mais com a jaqueta do que com os machucados. Menina louca. Menina. Acho que ela nem é mais menina. Deve só estar disfarçando a idade. Mas de onde ela tirou a ideia de comprar uma jaqueta branca? Que tipo de gente usa uma jaqueta branca? Será que nenhuma amiga a avisou que jaquetas devem ser de cores escuras?

Bom, vou parar de julgar e me atentar aos fatos da história: Estava lá eu, só observando o movimento, quando a vi chegando. De fones de ouvido, ela cantava alto. Um amigo me disse que já tinha encontrado essa Maria Fernanda correndo no Ibirapuera algumas vezes e que ela canta sozinha mesmo por aí. Acho que estava ouvindo rock´n roll porque também mexia as mãos, como se tocasse uma bateria.  De repente, do nada, ela caiu. Caiu, não. Voou. E olha que entendo sobre voos. É, é sim. Ela voou. Não estou exagerando. Juro.  Fiquei só observando todo o movimento. Ela iria cair de cara no chão, mas conseguiu se virar. Não tinha como eu ir ajudar. Até tinha vai. Mas eu estava ocupada no momento. Pensei que se ela não se levantasse em alguns segundos, eu tentaria fazer algo. São Paulo deixa a gente assim, meio egoísta mesmo.

Antes de se levantar, percebi que ela estava falando sozinha, olhando pra cima. Mas não era comigo que ela falava. Raramente sou percebida nessa selva de pedras. Menina louca. Menina não. Já disse que ela não é mais menina? Que só disfarça a idade? Então, ficou lá, apontando o dedo pra cima e balbuciando algumas palavras. E como gesticulava. Estava bem brava. Mas eu não entendo direito o que as pessoas falam. Ei, não me chama de surdo não. Surdo é você.

Ela levantou. Olhou a mão ensanguentada e tirou a jaqueta. Ai, quanta preocupação com essa jaqueta. Materialista! O cotovelo sangrava. Amarrou a jaqueta na cintura. E saiu correndo. Só consegui ver até ela virar a esquina. Aí sumiu. Uma semana depois a vi de novo. No mesmo momento quando ela virava a Rua da Amargura. Vinha do mesmo jeito: cantando alto. Ela parou no mesmo local da queda. Ficou olhando para o chão durante poucos segundos. Agachou. Olhou mais um pouco. E saiu correndo de novo. Nunca mais a vi por lá. Deve ter mudado o trajeto. Sei lá. Tem gente que pega trauma.


Daqui uma semana, eu me mudo novamente. Meus filhotes já nasceram e vamos voar pelo mundo. Não é fácil ser uma maritaca em São Paulo. 

Quando até o Céu ri de você

Eu tropeço e caio na rua como uma criança que tenta chupar um sorvete em um dia de Verão. Acredito que isso aconteça mais comigo do que com todos os demais seres desse planeta. Sempre rio dos meus tombos, mas confesso que estou começando a perder o humor. Não necessariamente toda vez que eu tropeço, eu caio. Às vezes é só um tropeço mesmo.  Ou uma virada de pé. No começo, achava que a culpa era minha. Sei lá, talvez eu tivesse uma perna mais curta que a outra. Foi o que uma amiga me disse certa vez. Mas de uns tempos para cá tenho certeza que as calçadas são as vilãs. Sou apenas uma vítima.

O interessante de cair - se é que há algo de interessante nisso - é ver a reação das pessoas. Muitos, mas muitos mesmo riem de você e só depois chegam para perguntar se está tudo bem. As mulheres são as piores. Gargalham sem dó e nem piedade. Independente da classe social. Os homens não. Estão sempre dispostos a te levantar do chão. Sempre há uma mão masculina para te socorrer. Na verdade, eu nunca precisei de ajuda para me levantar dos meus tombos. Mesmos porque, quando você cai, a primeira reação é levantar e sair correndo e rezar para que ninguém tenha visto. Mas sempre tem um ser que registra a cena toda. Parece que ele estava lá esperando por isso. Eu nunca vi ninguém caindo. Nunca. Se um dia isso acontecer, não sei qual será minha reação. Talvez eu gargalhe muito. Afinal, vingança é um prato que se come frio.

Tudo estava sendo levado com muito humor até o último tombo. Tombo não. Voo. Porque eu voei. E, sem asas, me estatelei no chão. Eu tinha acordado às seis da manhã para correr, como faço três vezes por semana. Às vezes duas, às vezes quatro, às vezes uma. Ventava. Decidi correr de calça e usar a minha jaqueta corta-vento-nova-linda que eu tinha acabado de trazer de New York. Era nova. Novíssima.  E branca.

Decidi fazer um trajeto novo porque aquele percurso do Parque do Ibirapuera já me causava um certo desconforto. No quilômetro 2,33 foi onde tudo aconteceu. Não perguntem qual foi a causa do tropeço. Eu simplesmente não sei . Sei que nunca vivenciei nada parecido.  E não, não tirei nenhuma boa lição dessa história. Mas, o que me chama a atenção nos tombos são os pensamentos que te acometem naqueles fragmentos de segundo entre o tropeço, o voo, e a queda em si.  Naqueles brevíssimos instantes eu consegui pensar:

- Será que ainda dá tempo de eu fazer algo para não cair? Não. Eu vou cair.
- Que eu não caia com a cara no chão, que eu não caia com a  cara no chão.
- Bem que minha prima me disse que não era para eu comprar essa bendita jaqueta branca 

E, então, a queda. Lá estava eu estatelada no chão, de lado, com o rosto intacto. A primeira coisa que fiz foi olhar para os lados. Ufa, a rua estava vazia e ninguém tinha visto.  Olhei para o meu cotovelo e as manchas de sangue já tinham atravessado o pano fino da jaqueta-corta-vento-nova-linda, e branca, que eu tinha acabado de trazer de New York. Lembrei da minha prima de novo. Certeza que ela vai falar: “Falei que não era pra você comprar a jaqueta branca, Mariaaaaa.” Olhei para a minha calça. Estava quase rasgada. Minha mão esquerda sangrava em dois diferentes lugares. Eu tinha sido assaltada três dias antes e considerei aquele tombo uma verdadeira afronta. Caída no chão, olhei pra cima e pensei: “Vocês estão de sacanagem comigo. Só pode ser. ” Com quem eu estava falando? Sei lá. Com os deuses, espíritos, gnomos, duendes, Deus. Sei lá. Mas que estava com cara de sacanagem, ah, estava. Fiquei imaginando esse povo todo lá em cima, no Céu, rindo da minha cara.


Ainda faltavam oito quilômetros para eu completar os dez, que é o quanto corro sempre. Às vezes mais, quase nunca menos e quase sempre dez cravados. Eu não poderia voltar pra casa daquele jeito, sem nenhuma dignidade. Afinal, eu tinha acordado às seis horas da manhã com um propósito e ele não havia sido cumprido. Levantei. Olhei para o chão rapidamente para tentar descobrir se tinha sido um buraco, um relevo ou uma pedra o responsável por aquela cena. Não identifiquei nada. Decidi continuar correndo até completar os dez quilômetros.  Tirei a jaqueta corta-vento-ex-nova-linda, e branca, e amarrei na cintura. O cotovelo em carne viva. A mão também.  Sem um puto, não consegui nem comprar uma água. Lavei o machucado rapidamente na torneira do banheiro do Ibirapuera. E corri, corri, corri. Meu iPod tocava Queen. 12 quilômetros no total. Na hora de tomar banho, doeu. Chorei. De dor e de raiva. 

Uma semana depois, quando voltei a correr, decidi passar pelo mesmo lugar pra ver se eu descobria qual tinha sido a causa do acidente. Nada, não descobri nada. Nada. Na-da. Eu devo mesmo ter uma perna mais curta do que a outra. Talvez a minha amiga seja a única que tenha razão nessa história toda.

Se todos os espetinhos fossem iguais a você, ó Dja´s

Antes mesmo de morar em São Paulo, eu já conhecia o espetinho do Dja´s. Sempre tive tino para botecos pés-sujos, porém limpinhos. Não sou dada a locais glamurosos. Tá certo que não tenho muito dinheiro para tamanha pompa, mas um bom boteco é insubstituível, que me perdoe o Alex Atala. Mas voltando ao Dja´s, é uma portinha ali na rua Rosa e Silva, a meio quarteirão do minhocão, numa bifurcação. Um dos lados da bifurcação é um beco sem saída. Mas isso não tem nada a ver com o Dja´s. Foi só para tentar traçar um cenário melhor de onde ele está localizado.

O Dja´s fica a meio quarteirão da casa da minha madrinha, que sempre me abrigou quando eu ainda era uma desabrigada na Capital. Por isso, o meu amor pelo Djalma. Sim, ele chama Djalma. Você deve estar pensando "óbvio que é Dja´s de Djalma." Mas não é tão óbvio assim. Poderia ser de Dejair, por exemplo. Ou Djanilson.Vai saber.

Senhor e senhora Dja´s: de jaleco e tudo
Dia desses, pela primeira vez, resolvi bater um papo com o Djalma enquanto ele assava meus quatro espetinhos. A churrasqueira fica na calçada mesmo, assim como as mesas. Pedi uma cerveja e começamos a prosa. Assunto importante antes de vocês saberem o que conversamos: a cerveja está sempre, sempre mesmo, trincando. Uma beleza.

Bom, Djalma e a mulher estão naquele ponto há 13 anos. Ele já foi de tudo um pouco no setor "restaurantes, botecos e afins." De garçom de churrascaria a gerente de casa de massas. Como empreendedor, também já tinha tentado outras coisas, mas foi no Dja´s Grill que encontrou a chave do sucesso.

O espetinho-pé-sujo-mais-limpinho-de-São-Paulo só não funciona aos domingos. Djalma trabalha na companhia da esposa - que não quis muito papo comigo e, por isso, não sei o nome dela. Eles são casados há 13 anos. Pergunto se eles moram longe esperando que venha uma resposta afirmativa. Não, eles moram do outro lado da rua. Pergunto quem são os clientes com o intuito de descobrir se são da vizinhança ou se são como eu, que saem da região da Paulista para comer espetinhos por lá.

Nessa hora a Senhora Dja´s faz questão de responder que os clientes delas saem até da Vila Mariana para comer lá e são médicos, advogados e tem ATÉ empresários. A vizinhança, segundo ela, não é o que move o negócio, diz com desdém.

Minha cerveja acabou. Meus espetinhos ficaram prontos. Pedi para levar para viagem. Uma tulipinha, um paio, uma kafta e um frango. A tulipinha ele não cobrou porque "estava muito mirrada." Tudo ficou R$ 14,50. Acho que eles aceitam cartão, mas paguei em dinheiro.

Não quero transformar o Dja´s num lugar turístico, mas se você gosta de um bom espetinho com cerveja gelada e com preço camarada - o que é raro em São Paulo - melhor lugar não há. Ah, se todos os espetinhos fossem iguais aos seus, ó Dja´s.

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