Inspira, expira e pensa azul

Decidi seguir a dica de uma amiga sobre a prática da meditação. Amiga, não. Irmã. Porque só uma irmã seria capaz de me convencer que eu consigo aquietar a minha tão movimentada mente. 

Para começar, precisava encontrar um lugar em que eu pudesse ser instruída e que, óbvio, fosse de graça. Google. “Meditação de graça em São Paulo.” Encontrei o Centro Shambala de Meditação e que estava localizado a alguns quarteirões de mim. Me programei para a terça-feira. Fui. Incrível, não cheguei atrasada. Fiquei aliviada por isso. Dez minutos antes de a meditação começar, meu celular tocou. Era do trabalho. Eu tinha dez minutos para resolver a questão. Era isso ou eu perderia a minha primeira tentativa de ser alguém focada na vida. Oito em ponto. Não havia mais ninguém lá embaixo. Somente eu. Ao telefone. 

Oito e cinco subi as escadas. Precisei descer de novo porque não tinha tirado o sapato. Desci. Subi. Cinco portas fechadas. Qual era a porta que eu deveria entrar? Escolhi uma. A meditação já estava começando. Causei um breve tumulto até encontrar um lugar para sentar. Sentei. Estava na sala errada. O professor percebeu isso só de olhar para mim.


Troquei de sala. Causei mais um tumulto. Não havia almofadas pra mim. Alguém precisou sair para buscar. Todos precisaram se movimentar para caber mais uma pessoa na sala. Com as pernas cruzadas senti que a minha cirurgia do menisco ainda dava suas caras. Dor no joelho. Dor nas costas. Descobri que iríamos meditar de olho aberto. Era a técnica usada por eles para nos aproximar ainda mais da realidade. Eu não conseguiria nunca. Já sabia. Na minha frente uma garota usava uma blusa de oncinha e toda a minha concentração estava em acompanhar o movimento da blusa enquanto ela se concentrava na própria respiração. Parecia que a onça estava viva. Dei uma olhadinha rápida no professor só para ter certeza de que ele estava meditando mesmo. Ele me flagrou olhando. Senti vergonha. Desviei o olhar. Voltei a me concentrar na respiração. Em vão. Pensei na minhas férias, no trabalho, na blusa de oncinha, no álbum novo do Paul McCartney, na prova de revezamento que vou participar, na blusa de oncinha, na blusa de oncinha, na blusa de oncinha, nas minhas férias, no show do Stevie Wonder, na porcaria da minha mente que não conseguia prestar atenção só na respiração, na blusa de oncinha, na minha vontade de sair correndo, na minha vontade de continuar insistindo, na blusa de oncinha e na minha barriga que roncava e mostrava a todo o ambiente quem é que mandava no pedaço.


Pensa no ar entrando, chegando aos pulmões, pensa em luz azul, amarela ou sei lá qual era a cor. Um celular tocou. Uma menina começou a tirar foto e eu só pensava por que raios Buda estava colocando todas aquelas distrações na minha frente? Eu só queria meditar. O gongo tocou. A meditação acabou. Não foi dessa vez que eu me tornei uma pessoa com foco. Enquanto isso não acontece, continuarei a deixar o bolo a queimar no forno, errarei os caminhos pelas ruas de São Paulo, correrei pensando na lista do supermercado, cairei na rua tropeçando nas raízes das árvores e nos buracos das calçadas e só perceberei que o guarda-chuva estava guardado na bolsa depois de ter tomado chuva achando que tinha esquecido a sombrinha em casa. Semana que vem estarei lá de novo. Inspira, expira e pensa azul.

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Jornalista. Ardida. Gosta de livros, música, Mafalda, São Jorge, sorvete, corrida e bicicleta. Canta sozinha na rua e conta helicópteros no céu.

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