Maldito Facebook

Ela me contou a sua história de amor e pediu para que eu a escrevesse. A história poderia ter sido escrita por ela mesmo, de tão linda que é, mas ela não queria que soubessem de quem se trata. Então, ficou assim:

De óculos escuros, cabelos presos, e uma roupa qualquer, ainda olhando para a área de embarque enquanto ele se ia, ela chorou. Chorou de soluçar. Chorou de perder as forças, chorou até faltar o ar. Chorou de fazer barulho. Chorou de doer. De doer a alma. Chorou sozinha. E foi embora sozinha. Ele não voltaria mais. Ela sabia. Pelo menos não mais para a vida dela. Mas para preencher a vida de alguém ele estava voltando.

Conheceram-se durante um trabalho esporádico, daqueles intensos, que te deixam sem casa e sem vida por alguns meses. Mas que vale a grana paga. Ela na cidade dela e ele fora da cidade dele.  Foi amor ao primeiro telefonema. Ficaram um mês se apaixonando um pelo outro somente pela voz. E quando não tinham motivos para se falarem por telefone, arrumavam um. Ambos sabiam que aquela ligação era somente uma desculpa para se ouvirem. Ela gostava da voz dele. Ele achava ela engraçada. Parecia que se conheciam há anos. Quase que de outra vida. Sim, chegaram a suspeitar que era coisa de reencarnação.

Viram-se pessoalmente. Meu Deus, ele não era só aquela voz bonita do telefone. Deu choque já nos primeiros segundos do encontro. Mas era um encontro de trabalho e não amoroso. Contiveram-se. Ela fala que ouvia barulhinho de alta tensão só de relar nele, tamanho era o choque. Ela descobriu que ele namorava. Ficou decepcionada. Ficou brava. Ficou triste. Ficou com raiva da vida. Decidiu que iria resistir ao amor. Ele concordou. Mas ninguém resistiu a nada. O cupido havia acertado a flecha. Não era só a conhecida química explosiva – pele e cheiro – mas também tinha cumplicidade na troca de olhar, no sorriso, nas conversas, nos abraços e nos carinhos. Era sexo, sim. Mas também era coração.

Foram dois meses assim e ambos achavam que, enfim, a vida seria generosa com eles. Tinham tudo, mas faltava o amor. E o amor estava ali agora. O trabalho temporário acabou. Corações ficaram aflitos. Ele precisava voltar para a cidade dele. Para o Estado dele. Para a namorada dele. E ele voltou. E foi ela quem o levou até o aeroporto. Depois da despedida, chorou mais dois dias na cama. Sem sair se quer para comer. Mas decidiu que era hora de levantar – da cama e para a vida – e assumir os riscos que saberia que iria enfrentar quando disse sim a ele.

A vida tomou o seu rumo e ela continuou a buscar um amor. Nunca mais se falaram. Dia desses resolveu matar a saudade vendo fotos dele no Facebook. Descobriu que ele e a namorada haviam se casado. Ficou em choque. Mais um dia chorando na cama. Não tem muita certeza, mas acha que ele era o homem da vida dela. Pelo menos até hoje. Maldito Facebook. 

2 comentários:

Luiza Pellicani 4 de setembro de 2013 15:07  

que lindo e triste ao mesmo tempo

Iberê 10 de setembro de 2013 15:24  

edição cinematográfica... Gostei

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Jornalista. Ardida. Gosta de livros, música, Mafalda, São Jorge, sorvete, corrida e bicicleta. Canta sozinha na rua e conta helicópteros no céu.

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