Porque não dividir a máquina de café

Quando escrevi aqui um post usando a máquina de café para ilustrar a minha indignação (http://nossocortico.blogspot.com/2010/06/sem-maquina-de-cafe-e-tudo-culpa-da.html), alguns colegas vieram me dar os parabéns, mas não tiveram coragem de manifestar a sua opinião entre os comentários do blog. Vai que o chefe lê, né? Não sei bem os motivos, mas nunca me preocupei muito com isso.

De novo a máquina de café será o meu ponto de partida, mas não para mostrar indignação, mas sim para mostrar os problemas que ela pode causar quando é compartilhada por jornalistas e publicitários. Publicitários, não, contatos comerciais, que eu nunca consegui descobrir no que eles são formados. Só sei que os bons de verdade ganham mais do que qualquer jornalista. E, talvez por isso, eles tentam vender um anúncio em forma de matéria e depois empurram a venda goela abaixo da redação. Eles sabem que são nossos provedores. O que eles não sabem é que jornalista prefere ser pobre a sucumbir aos interesses comerciais.

Mas, não estou aqui para falar mal dos tais contatos. Afinal, eles sustentam o jornal, não é mesmo? Quem nunca ouviu isso que atire a primeira pedra. Voltemos ao cafezinho, que vai servir para falar mal do sistema. Sistema que leva o nome de jornal. Jornalista que frequentou a aula de ética na faculdade já ouviu aquela historinha que comercial e redação deveriam estar em prédios separados. Se não for possível, o ideal é que funcionários de ambos os lados não se trombem, para evitar que não se trombem, de verdade. No Times, por exemplo, o fechamento da redação acontece um dia depois do comercial. Isso impede que aquele anunciante de um rodapé de página ligue ao diretor comercial e o ameace com o cancelamento do grandioso anúncio. Sabemos bem que o departamento comercial costuma ceder, mesmo que o rodapé não pague nem mesmo o salário do motorista. Benditos motoristas. Malditos anunciantes.

E o café? Bem, o café é o motivo que os fumantes e não fumantes têm para dar aquela relaxada no meio do expediente. E quanto o expediente é formado por jornalistas e publicitários, ops!, contatos comerciais, é bem óbvio que essas pessoas que brincam de cabo de guerra todos os dias vão se trombar. Poderia ser harmonioso, mas não é. Não é porque o contato olha para a sua cara e lembra de te sugerir uma pauta. É incrível como vendedores se acham bons pauteiros. É a loja nova que abriu no shopping ou a concessionária de carros importados que “tá anunciando com a gente.” Pedem página, pedem caderno, pedem nota.  É também no cafezinho que o vendedor de anúncio sem querer lembra que encontrou com um anunciante fodão dia desses e ele disse que o jornal precisa de páginas mais voltadas aos empresários. Hummm!

Certa vez um vendedor de anúncio encontrou um repórter no café e disse que o entrevistado dela, que também era um anunciante, estava bem bravo e não iria anunciar mais com a “gente” porque a repórter tinha errado o nome dele na matéria. Ao encontrar o entrevistado-anunciante a jornalista foi se desculpar e, pasmem, ele não tinha reclamado de nada. Culpa do café compartilhado. Se cada um tivesse no seu quadrado, conversas babacas como essas seriam evitadas. Talvez o cara não se prestasse ao papel de fazer uma ligação. Isso sem contar que há jornais, onde eu trabalhava era um deles, que o diretor superintendente é também o diretor comercial e ocupa uma sala de vidro onde ele sabe timtim por timntim o que cada um está fazendo. Alguém adivinha onde isso vai parar? Mas isso é assunto para outro post.

5 comentários:

Neto Guido 16 de fevereiro de 2011 15:09  

Maria isso é uma luta eterna de classes, rsss.
Em todas as areas, o comercial é tido como ganancioso e intrometido, seja na area jornalistica, seja na area de serviços ou industria. Operacional e Coemrcial são como agua e oléo, mas a culpa não é do profissional e sim da cultura da classe. O Comercial lida com uma montanha russa de emoçoes que nenhum outro segmento empresárial lida. A pressão por metas, o convivio com salarios variáveis, a concorrencia, tudo determina o perfil da area comercial, acarretando nestas disparidades e conflitos de interesses entre os departamentos. Em sintese, a culpa não é do coitado d profissional e sim da cultura capitalista que gera todo este comportamento.

bjs na alma

Rudy 18 de fevereiro de 2011 11:08  

Eu sou publicitário e odeio café. Entendo a confusão entre contato comercial e publicitário! É normal. Mas estamos em 'classes' diferentes apesar do business fazer parte de um objetivo em comum. Ótimo post!

Jorge 18 de fevereiro de 2011 23:44  

Gostei do seu blog, só fiquei meio que sabendo hoje. Beijos

Andre Ricci 22 de fevereiro de 2011 14:42  

Puxa vc é tão corajosa! Por que vc não escreveu esse texto enquanto ainda estava empregada, heroína dos jornalistas?
Uma dica. Se ainda não conseguiu superar a sua demissão procure um psicólogo.

Maria Fernanda Ribeiro 22 de fevereiro de 2011 22:12  

Opa! Leitor novo na área! Seja bem-vindo André Ricci, que pelo jeitão do comentário ou é publicitário ou pretende ser um. Superei rapidamente a minha demissão com os meus trabalhos nas editoras Abril e Trip e como correspondente do UOL. Em junho de 2010, quando, acho, ainda não pensavam em me demitir escrevi este post http://nossocortico.blogspot.com/2010/06/sem-maquina-de-cafe-e-tudo-culpa-da.html, que era nada mais do que falando mal do jornal onde eu trabalhava, a Gazeta de Ribeirão. Se para você isso significa coragem, acho até que tenho!

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