E quando você acha que ninguém viu...

(Para entender esse texto, primeiro é preciso ler o que está abaixo dele. Vai lá.)

Ela jura que ninguém viu nada. É o tipo de gente que deve se enganar com tudo na vida. E fica espalhando isso, como se fosse uma vitória. Vitória? A menina sai de lá sangrando, toda ferrada, e ainda acha que foi a glória ninguém ter visto. Eu vi. Vi tudo. Tudinho. Desde a hora que ela virou a esquina e entrou na rua. A rua da amargura. Não chama rua da amargura não, antes que vocês achem que se trata de uma piada. De mau gosto, claro. Mas é como se fosse. Como se fosse uma piada, de mau gosto, e como se fosse mesmo a Rua da Amargura.  E não estou falando isso por ela não. Mal a conheço. Estou falando isso por mim, que sou obrigada a conviver diariamente com os carros passando em alta velocidade. E as buzinas? Meu Deus, como vocês são chatos. Não vou nem falar da fumaça porque já devem estar cansados desse papo: trânsito, engarrafamento, poluição.

Assim, não posso dizer que fiquei com dó dela. Dó. Tenho dó é de mim, que vim parar aqui depois de uma briga com a família e a Capital foi o que me restou. Não sei vocês, mas eu acordo bem cedo para trabalhar. A minha vida é bem dura viu? Se fosse no Interior tudo seria mais fácil. Mas aqui em São Paulo ninguém dá a mínima pra gente. Mas, voltando à história da Maria Fernanda. É esse o nome dela né? Então, foi bem engraçado. Dei tanta risada que até chorei. Tenho dessas: toda vez que rio muito, lágrimas saltam dos meus olhos, como nos desenhos animados.

Mas todos riem  – riem não, gargalham – toda vez que ela se estatela no chão. Vocês precisavam ver a cara dela olhando o sangue que tomava conta da jaqueta branca que ela usava. Parecia novinha a jaqueta. Hahahaha. Tomou o cotovelo todo. Estou rindo pela cara dela e não pelo sangue. Parecia se importar mais com a jaqueta do que com os machucados. Menina louca. Menina. Acho que ela nem é mais menina. Deve só estar disfarçando a idade. Mas de onde ela tirou a ideia de comprar uma jaqueta branca? Que tipo de gente usa uma jaqueta branca? Será que nenhuma amiga a avisou que jaquetas devem ser de cores escuras?

Bom, vou parar de julgar e me atentar aos fatos da história: Estava lá eu, só observando o movimento, quando a vi chegando. De fones de ouvido, ela cantava alto. Um amigo me disse que já tinha encontrado essa Maria Fernanda correndo no Ibirapuera algumas vezes e que ela canta sozinha mesmo por aí. Acho que estava ouvindo rock´n roll porque também mexia as mãos, como se tocasse uma bateria.  De repente, do nada, ela caiu. Caiu, não. Voou. E olha que entendo sobre voos. É, é sim. Ela voou. Não estou exagerando. Juro.  Fiquei só observando todo o movimento. Ela iria cair de cara no chão, mas conseguiu se virar. Não tinha como eu ir ajudar. Até tinha vai. Mas eu estava ocupada no momento. Pensei que se ela não se levantasse em alguns segundos, eu tentaria fazer algo. São Paulo deixa a gente assim, meio egoísta mesmo.

Antes de se levantar, percebi que ela estava falando sozinha, olhando pra cima. Mas não era comigo que ela falava. Raramente sou percebida nessa selva de pedras. Menina louca. Menina não. Já disse que ela não é mais menina? Que só disfarça a idade? Então, ficou lá, apontando o dedo pra cima e balbuciando algumas palavras. E como gesticulava. Estava bem brava. Mas eu não entendo direito o que as pessoas falam. Ei, não me chama de surdo não. Surdo é você.

Ela levantou. Olhou a mão ensanguentada e tirou a jaqueta. Ai, quanta preocupação com essa jaqueta. Materialista! O cotovelo sangrava. Amarrou a jaqueta na cintura. E saiu correndo. Só consegui ver até ela virar a esquina. Aí sumiu. Uma semana depois a vi de novo. No mesmo momento quando ela virava a Rua da Amargura. Vinha do mesmo jeito: cantando alto. Ela parou no mesmo local da queda. Ficou olhando para o chão durante poucos segundos. Agachou. Olhou mais um pouco. E saiu correndo de novo. Nunca mais a vi por lá. Deve ter mudado o trajeto. Sei lá. Tem gente que pega trauma.


Daqui uma semana, eu me mudo novamente. Meus filhotes já nasceram e vamos voar pelo mundo. Não é fácil ser uma maritaca em São Paulo. 

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Jornalista. Ardida. Gosta de livros, música, Mafalda, São Jorge, sorvete, corrida e bicicleta. Canta sozinha na rua e conta helicópteros no céu.

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