Quando até o Céu ri de você

Eu tropeço e caio na rua como uma criança que tenta chupar um sorvete em um dia de Verão. Acredito que isso aconteça mais comigo do que com todos os demais seres desse planeta. Sempre rio dos meus tombos, mas confesso que estou começando a perder o humor. Não necessariamente toda vez que eu tropeço, eu caio. Às vezes é só um tropeço mesmo.  Ou uma virada de pé. No começo, achava que a culpa era minha. Sei lá, talvez eu tivesse uma perna mais curta que a outra. Foi o que uma amiga me disse certa vez. Mas de uns tempos para cá tenho certeza que as calçadas são as vilãs. Sou apenas uma vítima.

O interessante de cair - se é que há algo de interessante nisso - é ver a reação das pessoas. Muitos, mas muitos mesmo riem de você e só depois chegam para perguntar se está tudo bem. As mulheres são as piores. Gargalham sem dó e nem piedade. Independente da classe social. Os homens não. Estão sempre dispostos a te levantar do chão. Sempre há uma mão masculina para te socorrer. Na verdade, eu nunca precisei de ajuda para me levantar dos meus tombos. Mesmos porque, quando você cai, a primeira reação é levantar e sair correndo e rezar para que ninguém tenha visto. Mas sempre tem um ser que registra a cena toda. Parece que ele estava lá esperando por isso. Eu nunca vi ninguém caindo. Nunca. Se um dia isso acontecer, não sei qual será minha reação. Talvez eu gargalhe muito. Afinal, vingança é um prato que se come frio.

Tudo estava sendo levado com muito humor até o último tombo. Tombo não. Voo. Porque eu voei. E, sem asas, me estatelei no chão. Eu tinha acordado às seis da manhã para correr, como faço três vezes por semana. Às vezes duas, às vezes quatro, às vezes uma. Ventava. Decidi correr de calça e usar a minha jaqueta corta-vento-nova-linda que eu tinha acabado de trazer de New York. Era nova. Novíssima.  E branca.

Decidi fazer um trajeto novo porque aquele percurso do Parque do Ibirapuera já me causava um certo desconforto. No quilômetro 2,33 foi onde tudo aconteceu. Não perguntem qual foi a causa do tropeço. Eu simplesmente não sei . Sei que nunca vivenciei nada parecido.  E não, não tirei nenhuma boa lição dessa história. Mas, o que me chama a atenção nos tombos são os pensamentos que te acometem naqueles fragmentos de segundo entre o tropeço, o voo, e a queda em si.  Naqueles brevíssimos instantes eu consegui pensar:

- Será que ainda dá tempo de eu fazer algo para não cair? Não. Eu vou cair.
- Que eu não caia com a cara no chão, que eu não caia com a  cara no chão.
- Bem que minha prima me disse que não era para eu comprar essa bendita jaqueta branca 

E, então, a queda. Lá estava eu estatelada no chão, de lado, com o rosto intacto. A primeira coisa que fiz foi olhar para os lados. Ufa, a rua estava vazia e ninguém tinha visto.  Olhei para o meu cotovelo e as manchas de sangue já tinham atravessado o pano fino da jaqueta-corta-vento-nova-linda, e branca, que eu tinha acabado de trazer de New York. Lembrei da minha prima de novo. Certeza que ela vai falar: “Falei que não era pra você comprar a jaqueta branca, Mariaaaaa.” Olhei para a minha calça. Estava quase rasgada. Minha mão esquerda sangrava em dois diferentes lugares. Eu tinha sido assaltada três dias antes e considerei aquele tombo uma verdadeira afronta. Caída no chão, olhei pra cima e pensei: “Vocês estão de sacanagem comigo. Só pode ser. ” Com quem eu estava falando? Sei lá. Com os deuses, espíritos, gnomos, duendes, Deus. Sei lá. Mas que estava com cara de sacanagem, ah, estava. Fiquei imaginando esse povo todo lá em cima, no Céu, rindo da minha cara.


Ainda faltavam oito quilômetros para eu completar os dez, que é o quanto corro sempre. Às vezes mais, quase nunca menos e quase sempre dez cravados. Eu não poderia voltar pra casa daquele jeito, sem nenhuma dignidade. Afinal, eu tinha acordado às seis horas da manhã com um propósito e ele não havia sido cumprido. Levantei. Olhei para o chão rapidamente para tentar descobrir se tinha sido um buraco, um relevo ou uma pedra o responsável por aquela cena. Não identifiquei nada. Decidi continuar correndo até completar os dez quilômetros.  Tirei a jaqueta corta-vento-ex-nova-linda, e branca, e amarrei na cintura. O cotovelo em carne viva. A mão também.  Sem um puto, não consegui nem comprar uma água. Lavei o machucado rapidamente na torneira do banheiro do Ibirapuera. E corri, corri, corri. Meu iPod tocava Queen. 12 quilômetros no total. Na hora de tomar banho, doeu. Chorei. De dor e de raiva. 

Uma semana depois, quando voltei a correr, decidi passar pelo mesmo lugar pra ver se eu descobria qual tinha sido a causa do acidente. Nada, não descobri nada. Nada. Na-da. Eu devo mesmo ter uma perna mais curta do que a outra. Talvez a minha amiga seja a única que tenha razão nessa história toda.

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Jornalista. Ardida. Gosta de livros, música, Mafalda, São Jorge, sorvete, corrida e bicicleta. Canta sozinha na rua e conta helicópteros no céu.

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