Uma avant-première para esquecer

Conseguiu enxergar nas letras miúdas do convite que antes do início da sessão um coquetel seria servido. Pensou que só as pessoas importantes eram convidadas para pré-estreias e eventos com coquetel. Não que ela fosse importante. Mas ganhou o convite e não costuma recusar nada que é dado. Ainda mais quando o presente vem do chefe. A primeira coisa que fez quando o marido chegou em casa foi contar que teria um evento importante na próxima semana. “Certeza que servirão prosecco”, pensou, mas não comentou isso com o marido para não parecer que estava mais entusiasmada do que deveria . Mas era a primeira vez que ela recebia o convite para uma avant-première. É assim que eles chamam pré-estreia.  Eles quem? “As pessoas que frequentam esses lugares”, pensou, mas não disse.

Gente descolada. Gente com armações de óculos grandes e coloridas. Gente de cabelos vermelhos e despenteados. Gente fina. Porque esse pessoal de arte, de cinema, de televisão é tudo fino, pensou. Não que ela não fosse fina. Mas estava acostumada a frequentar locais com mulheres de tailleur e homens de terno e não festas com pessoas que combinam meia-calça vermelha com tênis All Star verde. Verde e de cano alto. E com cadarço laranja. Ela é advogada. De um escritório lá no Centro. Perto da Igreja da Sé. Conhecem? Refiro-me à igreja. O escritório com certeza vocês não conhecem.

Chegou o dia da avant-première, que ela não sabia direito nem como pronunciava essa palavra. Como ganhou o convite, ia sozinha. Mesmo sem conhecer ninguém. Uma amiga havia lhe dito para comer uma coisinha antes. “Nem que seja um pão de queijo.” Ela não entendeu direito porque precisava comer se haveria coquetel. Não comeu. Achou melhor economizar o dinheiro e comer de graça mesmo. Foi direto do trabalho. Só retocou a maquiagem. Não ia dar tempo de trocar de roupa. Mora na Zona Leste. Estava com uma foooooome. “Ainda bem que vai ter comida”, pensou.  

Pegou um trem e dois metrôs para chegar. Foi ao toalete e retocou de novo a maquiagem. O lápis de olho estava meio borrado. Perguntou ao segurança como fazia para chegar ao coquetel. “Só com convite”, ele respondeu. Não era isso que ela queria saber. “Só seguir reto nesse corredor”, consertou o segurança. “Idiota. Eu tenho convite”, pensou, mas não disse.

Ela estava, sim, um pouco ansiosa para a sua primeira pré-estreia, que teria a presença do diretor do filme e até alguns atores, que iriam conversar com os convidados no final. Quando encontrou o local do coquetel tomou o seu primeiro susto. “Que aperto”, pensou. Estava se sentindo praticamente no metrô no horário de pico. Ficou na ponta dos pés para tentar avistar em qual local o prósecco estava sendo servido. Avistou. Era longe. Imaginou que o garçom não chegaria até ela e decidiu se aventurar pelo salão. Chegaria ao local da bebida custasse o que custasse. “Dá licença, dá licença, dá licença.” Esbarrou numa senhora, o copo se espatifou no chão e o líquido espirrou na meia-calça vermelha. Na meia-calça da senhora e não na dela. A dela era cor da pele e não vermelha. Jamais usaria uma meia-calça vermelha, pensou. Pediu desculpas. Sentiu vergonha. Mas continuou a saga até o local das bebidas. Precisou dar umas cotoveladas para conseguir alcançar o destino final. Ela jamais confessaria para alguém que deu cotovelada nas pessoas. Afinal, isso não era fino. Se alguém visse, negaria até o final ou diria que foi sem querer. Mas sem um pouco de brutalidade teria assistido ao filme sem um mísero gole. Ufa, chegou. O garçom mandou esperar um pouco que precisava buscar mais garrafas na cozinha. E mais taças. Faltavam vinte minutos para a sessão começar. “Vinte minutos é o suficiente para eu tomar duas taças”, pensou. Não foi. Tomou só uma. Virou em dois goles. “Garçom lerdo”, pensou.


Na ponta dos pés novamente tentou avistar um garçom. Precisava comer um salgadinho que fosse. Lá vinha ele na sua direção. Resolveu esperar. Mas quando o garçom chegou a bandeja já estava vazia. Decidiu que ia esperar na porta da cozinha mesmo. Conseguiu chegar dando leves cotoveladas em uns dois ou três, mas pedindo desculpas na sequência. O garçom abriu a porta com a bandeja cheia de canapés. Canapés que ela sequer sabia o nome. Incrível, várias pessoas tiveram a mesma ideia que ela e uma multidão aguardava o pobre garçom no mesmo local: a porta da cozinha. Conseguiu alcançar, a cotoveladas, um salgado que ela não faz ideia do que era, mas tinha damasco e nozes e queijo. Tudo junto numa cestinha. Preferia uma empadinha de camarão. Não tinha. Ela queria era um gole de prosecco para empurrar aquela coisa. Não tinha. A sessão começou. Entrou. Não conseguiu ficar até o fim. Sua barriga começou a roncar. A pressão baixou. Não comia desde a hora do almoço. Saiu. Parou no boteco mais próximo. Sentou naquelas cadeiras de plástico que ficam na calçada. Comeu uma esfiha de carne. Comeu outra de queijo. Pediu uma cerveja de garrafa. “Garçom, manda também uma porção de amendoim. E mais uma cerveja, por favooooooor.” Na próxima pré-estreia, se for convidada para uma, irá seguir o conselho da amiga e comer uma coisinha antes, nem que seja um pão-de-queijo, pensou. E contou toda a sua história para o garçom. "Gente mais besta", respondeu o garçom. E completou: "O que é avant-première?"

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Jornalista. Ardida. Gosta de livros, música, Mafalda, São Jorge, sorvete, corrida e bicicleta. Canta sozinha na rua e conta helicópteros no céu.

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